segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Acídia

     
 (capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)
  

                 A Acídia


Acídia: palavra que provém do grego akêdía, traduzida como negligência, indiferença, abatimento. Assume também o significado de “sem dor”, no sentido de indolência. No latim tardio foi transformada no termo acedia. Pecado capital definido comumente como torpor melancólico relacionado a um sentimento de insignificância da vida, uma espécie de desenraizamento do homem que se torna incapaz de reconhecer a própria interioridade e praticar o bem. Gera fadiga mental, apatia, inércia, prostração, depressão, desespero, pusilanimidade, torpor, rancor, malícia, negligência, desleixo, descaso, lerdeza, desmotivação, banalização da vida. No século XIII, o teólogo Tomás de Aquino chegou a abordar esse vício classificando-o como “um pecado mal conhecido”, pois, ao longo do tempo, o termo passou por um processo de empobrecimento, perdendo alguns de seus significados, a ponto de ser substituído genericamente por preguiça que, por sua vez, seria somente uma derivação desse vício, significando falta de ânimo, inação, procura desordenada do repouso e do prazer em nada fazer, aversão ao trabalho, inatividade acentuada e inércia. Atribui-se essa substituição às modificações sociais e econômicas ocorridas na baixa idade média que resultaram em uma valorização crescente do trabalho, havendo, portanto, a necessidade de desestimular comportamentos que induzissem a improdutividade. Desse modo, a acídia descaracterizou-se como um vício de natureza espiritual e acentuou-se, cada vez mais, o seu carácter carnal. À preguiça opõe-se a diligência, operosidade (do latim industria). Sinônimo: animotomia (ânimo do lat. animus +-tomia; sufixo relativo a retirada); designativo de um estado patológico que se manifesta através da indiferença em relação ao mundo e está intrinsicamente ligado a uma distorção do conceito de imutabilidade da condição humana. Curiosamente, é um estado que envolve, ao mesmo tempo, a descrença na capacidade de reação interior do indivíduo e a adoção – passiva ou ativa - de artifícios mentais ou materiais extremamente elaborados e complexos como possível solução, distração ou método de mitigação dos efeitos dessa patologia. Desumanização das relações sociais, da educação, da arte, da ciência e da tecnologia. Artificialismo, resignação ao desespero, depressão, suicídio. Antídoto ou virtude: fortaleza. 

...


Lídia ouviu que tocavam a campainha insistentemente. Ela morava e trabalhava em um sobrado antigo que ficava em um bairro decadente da cidade. Precisava de espaço para trabalhar porque era artista plástica. Pelo menos era isso que dizia às pessoas quando queriam saber qual era a sua profissão. Não acreditava muito nesse tipo de rótulo. Achava até engraçado o nome. Não sabia o motivo, mas sempre que dizia “sou artista plástica” sentia como se seus braços e pernas fossem capazes de esticar e assumir a forma de tentáculos flexíveis e borrachentos. O mais engraçado de tudo era a cara que as pessoas faziam quando ela dizia que aquela era a sua profissão. Às vezes achava que algumas esperavam que ela se transformasse mesmo em uma espécie de mulher elástico ao som da palavra pláaaaaaaaastica. Mas nada de extraordinário acontecia, nunca. Aquilo que fazia era uma coisa normal como qualquer outra. “Eu vejo o mundo e depois devolvo alguma coisa para ele em forma de arte. Só isso. Que lindo, que poético! Dá até vontade de peidar. Durante um certo período passei a dizer simplesmente que vivia de renda, que havia recebido uma herança e que não precisava fazer porra nenhuma para viver. Afinal, ganhar a vida com arte não era isso mesmo? Não era ter dinheiro e viver fazendo só coisas gostosas? Vou passar o dia inteiro pintando, que gostoso! Passar o pincel na tinta amarela, depois na verde, depois na vermelha, que bacana! Tinta a óleo parece pomada contra assaduras para passar em bundinha de bebê, é mole, macia, desliza bem, dá para misturar com mais óleo e fazer uma papinha. Também dá para pintar diretamente com a mão. Dá para olhar o dia inteiro para a tela em branco e dizer que não estava inspirado. Dá até para vender a tela em branco e ganhar um bom dinheiro se conseguir que alguém olhe para a sua assinatura no cantinho do quadro e entenda que aquela é uma imagem que retrata com incrível transparência a relação entre o indivíduo e o nada absoluto. Obra-prima. Vamos falar seriamente agora. Ganhei uma herança sim. Já torrei quase tudo. Sobrou o sobrado da vovó. Oi vó, você algum dia imaginou que a sua casa seria habitada por uma como eu? Se soubesse disso teria feito alguma outra coisa com ela? Teria vendido a casa enquanto ainda tivesse tempo para gastar o dinheiro comprando todas as coisas que você sempre teve vontade de comprar na sua vida e não comprou? Vó, eu realmente tenho que lhe agradecer por todas as vontades que você não satisfez para que eu pudesse morar na sua casa e fazer arte. Tenho certeza de que você iria torcer o nariz se visse como estão as coisas. Está tudo um pouco bagunçado. É que meu pensamento funciona de forma orgânica. Sabe, estou trabalhando em um projeto. Não tem nada a ver com essas baboseiras conceituais que aparecem o tempo todo por aí. É arte mesmo. Cansei de pintar coisas móveis. Quando os homens pintavam figuras nas cavernas não esperavam que viesse alguém extrair um pedaço de rocha da parede e levasse para um lugar de exposição, ou, mais absurdo ainda, que alguém comprasse aquela imagem. A imagem fazia sentido porque pertencia a um único lugar, porque aquele único lugar no qual ela estava não pertencia e não podia pertencer ao mundo exterior. É isso que faz com que as coisas sejam sagradas. Pensei muito sobre isso. Se eu conhecesse uma pessoa e contasse para ela que embaixo da minha pele, em contato com a minha carne, havia uma série de desenhos, que eu os havia desenhado dia após dia durante toda a minha vida e que poderia descrever cada detalhe deles, você acha que essa pessoa conseguiria apreciar esses desenhos sem ter que tirar a minha pele e pendurá-la em algum lugar? Seria difícil, não é mesmo? Não sei se esse grau de entendimento seria possível. Talvez fosse mais fácil se eu me tornasse alquimista e encontrasse uma fórmula para tornar a minha pele suficientemente transparente para deixar o desenho aparecer, um pedacinho de cada vez. Um dia eu poderia mostrar uma parte, depois de algum tempo eu poderia mostrar outra e, aos poucos, o desenho ia sendo revelado. A pessoa só teria que não esquecer o que viu de cada vez, porque a pele volta ao normal depois de alguns segundos. É um processo que pode demorar uma vida inteira. Acho que nem se eu fosse alquimista eu conseguiria mostrar a alguém o que está desenhado dentro de mim. Então comecei a pintar as paredes da casa. Da sua casa, com os desenhos que eu nunca pude mostrar para você. No seu quarto o desenho é muito meticuloso. Não sei por qual motivo, mas quando estava trabalhando nele, reparei que as imagens que eu queria desenhar eram iguais às que estavam dentro de mim e também iguais a alguma coisa que eu já havia visto em algum lugar da casa. Passei dias sem conseguir desenhar nada, porque parecia que naquele lugar as coisas não funcionavam normalmente, como nos outros cômodos da casa. Eu não conseguia fazer aquilo sozinha, precisava me apoiar em alguma outra coisa que completasse a imagem. As formas que eu queria fazer não poderiam representar plantas aquáticas delgadas como cabelos verdes que se entrelaçam conforme a água faz movimentos, mas deveriam ser fios firmemente entrelaçados, que ilustram constelações em forma de carrosséis, mandalas celestes, engrenagens de um motor capaz de transformar coisas inconsistentes na realidade mais real que alguém um dia já foi capaz de sonhar. Remexi em tudo o que eu tinha em casa para ver se encontrava uma pista, um vestígio. Passei noites deitada na laje observando atentamente os desenhos que apareciam no céu quando um ponto se ligava a outro e percebi que a visão que eu podia ter do céu era muito redutiva para que fosse possível organizar a sua complexidade de modo inteligível para mim. É difícil ligar as estrelas de acordo com o plano que ocupam. Do meu ponto de vista, a sua profundidade sobreposta em bilhões de camadas que vão cada vez mais para dentro de si mesmas me deixavam confusa. Não somos capazes de entender o significado das ligações quando uma profundidade é profunda demais. Abandonei esse recurso, era inútil insistir. Pensei em ligar para a minha mãe, mas desisti, porque antes de conseguir explicar para ela o que eu estava precisando saber, precisaríamos conversar durante uns cinco anos sem parar, dia e noite. Acho que eu não iria aguentar. Nem ela. Interrompi os trabalhos no seu quarto. Continuei o trabalho nos outros cômodos e foi incrível como as coisas fluíram bem. No teto da sala eu desenhei cavalos alados que lutavam entre si com uma violência que parecia ter nascido de uma conjunção entre todos os desejos reprimidos do mundo. Não havia sangue na imagem, porque os desejos reprimidos são reprimidos justamente para não haver nenhum derramamento de sangue. Cavalos enlouquecidos e seguros ao mesmo tempo. Bem que eu gostaria de cavalgá-los. O piso também foi bem elaborado. Com uma faca pontiaguda entalhei no assoalho as escamas abandonadas de um peixe gigante, como se ele tivesse sido capturado e descamado pelos habitantes de um inteiro vilarejo. Todos trabalhavam juntos porque tinham fome, mas não eram egoístas. Descamaram o peixe juntos até o final antes de cortá-lo em pedaços iguais e distribuí-los entre todos. Enquanto entalhava as escamas no chão, sentia saudades daquele vilarejo e daquelas pessoas. Muitas saudades. Quase chorei, mas as lágrimas não saíram. Talvez porque as escamas pudessem de algum modo ficar manchadas com a água, não sei, talvez fosse isso. Mas, o mais provável é que eu tivesse medo de colocar para fora de uma vez tudo aquilo que estava gravado lá dentro como uma enxurrada, e não era daquele modo que as coisas deveriam ser feitas. Quando já estava quase desistindo de terminar os desenhos do seu quarto achei uma toalhinha de crochê caída entre o sofá e o rodapé da sala. Era fantástica. Subi correndo as escadas com uma lanterna na mão e projetei a sua imagem nas paredes do quarto mergulhadas no escuro. Aos poucos fui percebendo o motivo que me fez lembrar daquele objeto primeiramente de um modo subjetivo, apenas como uma sensação, sem que eu fosse capaz de ter uma visão concreta do objeto como um todo. Aquele objeto não tinha nenhum significado enquanto unidade. Por outro lado, ele era a imagem negativa de milhares de pequenos espaços que eu sempre quis ver preenchidos. Depois de projetar a imagem da toalhinha em várias posições, acendi a luz e transferi a sua forma para a parede preenchendo com pontos coloridos todos os espaços vazios entre um ponto e outro que formavam desenhos concêntricos. Após semanas de trabalho intenso, a toalhinha estava impressa em todos os lugares e ao mesmo tempo em nenhum. Ela estava lá e também não estava, decomposta em milhões de pontinhos resultantes da sobreposição da sua própria imagem. Pensei nas noites que havia passado na laje tentando encontrar uma solução para o seu quarto e vi que aqueles pontinhos reunidos ali eram muito parecidos com o céu achatado que conseguimos ver com os nossos olhos aqui na terra, só que a parede havia ficado infinitamente mais colorida. O melhor de tudo é que eu tinha à disposição todos os pontos necessários para obter qualquer tipo de imagem. Qualquer imagem poderia ser concebida a partir de qualquer um daqueles pontos. Se fossem organizados de um determinado modo, poderiam vir a formar qualquer uma das imagens da Capela Sistina, com todo o seu vigor corpóreo, seus volumes e perspectivas múltiplas, ou então, qualquer uma das composições geométricas essenciais de Mondrian. Todo o universo das artes visuais cabia dentro daquela parede; a única diferença dela em relação a todos os museus e galerias do mundo reunidos era que o expectador deveria interagir para organizar os pontos na justa posição. Em vez de as pessoas passarem apenas alguns minutos contemplando imagens completamente concluídas, que já haviam sido fotografadas, reproduzidas e difundidas em milhares de suportes diferentes em todo mundo, teriam que passar meses inteiros comtemplando uma parede como esta durante horas e horas a cada dia, juntando os pontos na própria mente e memorizando a ordem de cada pedaço formado para juntá-lo com outras partes formadas aos poucos ao longo dos outros dias. E quando dormissem, talvez pudessem ter a oportunidade de sonhar com as imagens ajustadas panoramicamente. Seria uma experiência capaz de virar a pessoa do avesso, literalmente. Só não sei quantos admiradores da arte teriam disposição para isso. Talvez só aqueles que já estivessem cansados de tudo, como eu. Agora, depois de ter terminado também as outras paredes do seu quarto, posso dizer que a casa está pronta para ser aberta ao público. Mas eu não vou poder estar presente. Para mim tudo tem que acabar definitivamente.” Deu uma última volta por todos os cômodos conferindo se tudo estava perfeitamente condizente com aquilo que havia decidido expor de si mesma. Uma imensa tranquilidade invadiu-a quando percebeu que poderia deixar todas as suas inquietudes para trás. Estaria tudo perfeito sem ela.





A campainha não parava de tocar. Quando finalmente os novos proprietários do imóvel conseguiram girar a chave na fechadura, que emperrava e precisava ser trocada, entraram na casa e viram que, ao contrário do que haviam combinado, a antiga moradora não estava lá esperando por eles para os acertos finais, mas, ao menos havia atendido uma das suas exigências. Todas as paredes estavam pintadas de branco e cheiravam a tinta fresca.

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