domingo, 17 de janeiro de 2016

O Verbo e Valeriana

    
   (capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016) 

    I. O Verbo e Valeriana

             Houve um tempo em que os planetas giravam em torno do sol sem que nenhum deles tivesse criaturas capazes de dar-lhes um nome. O verbo transformou-se em matéria, mas a matéria não se apropriou imediatamente de todas as faculdades do verbo. Isso aconteceu no princípio de tudo e continuou durante muito tempo depois. A matéria não tinha inteligência suficiente para pronunciar o verbo. A matéria, construída com inteligência, não era capaz de elaborar a inteligência com a qual foi construída e dialogar com ela. A matéria era um aglomerado de objetos mudos que obedeciam a leis gravadas na intimidade da sua natureza, atravessavam distâncias incomensuráveis sem se lamentarem nem se perguntarem para onde estavam indo. Eram a ação de um verbo que criava algo desprovido de olhos para olhar a si mesmo, matéria totalmente apática em relação ao próprio destino. Era justo que fosse assim, pois esses objetos faziam parte de um plano preparatório para a manifestação mais plena do verbo, como se no princípio o mundo fosse um teatro sem palco com uma imensa plateia surda porque nesse teatro não havia ninguém capaz de usar o verbo para ouvir ou contar a sua história. Tudo era uma sucessão de gigantescas massas anônimas que se chocavam violentamente sem emitir nenhum grito de dor, um prodígio de reações frenéticas, velocidades e temperaturas alucinantes e nenhuma demonstração de prazer. Assim, o universo trabalhou diligentemente na geração da própria complexidade material, obcecado em impor a sua nova estrutura a qualquer ordem de grandeza, como se fosse o resultado de um surto criativo de um artista abstracionista que dispõe a matéria de acordo com uma ordem caótica que só adquire significado à medida que seu mundo criado reabsorve todo o seu ceticismo lírico e a sua titânica fragilidade e segue adiante, atravessando o tempo. O tempo passou. Em alguma parte do espaço recém-modelado um insignificante grão de poeira cósmica apresentou algumas características particulares. Cozinhou-se no próprio fogo durante bilhões de anos até que conseguiu produzir uma espécie de sopa nutritiva. Água. Mar. Moléculas. Células. Metabolismo. Crescimento. Reprodução. Morte. Surgiram seres capazes de dar origem a outros seres idênticos a eles. Havia a necessidade de favorecer a variabilidade genética. Surgiu o sexo. A multiplicidade dos seres vivos, com toda a sua gama de novos instintos, foi sendo forjada com extrema paciência, até que chegou o momento de incluir na criação a inteligência. Através dela o verbo poderia finalmente interagir com cada pequena individualidade existente não apenas como ator, mas também como expectador-ator. Para que tudo pudesse ficar mais interessante desenvolveu-se simultaneamente o psiquismo, dando a capacidade de estabelecer laços afetivos e aguçar a percepção do mundo através da sensibilidade. A criatura inteligente pôde, então, contar com o vigor físico, com os sentidos, com o sexo, com os instintos e com as emoções para reinterpretar o seu ambiente, situar-se individualmente no mundo e organizar-se coletivamente. Sofisticou seus métodos de sobrevivência e passou a interferir na ordem natural das coisas. Formou sociedades. Criou coisas atribuindo significado a elas. Passou a sepultar os mortos. Tentou entender a dor. Imaginou. Plantou as sementes da civilização. O céu visto da Terra deixou de ser um espaço desprovido de história porque ele não era apenas uma imensidão anciã ocupada por corpos celestes em movimento, era um mistério. Um profundo mistério que precisava ser interpretado. E assim, o verbo fez-se forma para transformar-se em algo capaz de pressentir a existência do incógnito. Algo capaz de usar todas as palavras do mundo para tentar descrever o verbo, capaz de criar e usar a palavra verbo, logos, razão, deus, divindade e tantas outras e mesmo assim ficar em dúvida sobre o que é realmente possível abraçar com uma simples palavra. Essa

criatura inteligente, animal, pedra, explosão, vazio, dor, prazer tornou-se também interrogação.


As suas mãos esfoladas passavam sobre a superfície da água transparente no sentido contrário da correnteza e formavam pequenas ondulações. O sol brilhava alto no céu e alguns raios conseguiam atravessar os espaços que se abriam entre as folhagens das árvores quando o vento balançava suavemente seus galhos. Ao seu lado estavam espalhados alguns papéis e um tubo de plástico preto, cilíndrico e comprido. Tinha ido até lá para enterrar seu querido cãozinho que havia morrido naquela noite. Encontrou-o de manhã em um cantinho da sala, duro e gelado. Era a criatura mais dócil e gentil que havia conhecido em toda a sua vida e provavelmente morrera de velhice, silenciosamente, sem dar trabalho. Valeriana morava em um apartamento e não tinha um jardim à sua disposição para aquele tipo de ocasião. Mesmo que tivesse um espaço não cimentado perto de casa não ficaria em paz com a ideia de colocá-lo em um lugar movimentado como aquele, cheio de agitação, barulho de automóveis, cheiro de fumaça. Não se sentia bem com a ideia de cremá-lo; as cinzas, embora parecessem ser a solução mais prática para alguém que vivia como ela, eram tristes demais. Queria enterrá-lo em um lugar silencioso, no qual a natureza pudesse aos poucos, com calma, absorver o seu corpo e fazer com que fizesse parte da terra, das árvores, da água, do vento. Embrulhou o bichinho em uma blusa de lã bem quente e começou a pensar em uma solução. Teve algumas ideias que achou um pouco exageradas, mas, como era sábado e estava de folga, começou a reconsiderá-las. Lembrou-se de um sítio que ficava em uma região serrana do interior onde morava um casal simpático que alugava algumas estruturas do lugar para grupos que queriam passar um tempo em meio à natureza. Tinha ido lá uma vez com uma amiga que participava de um grupo de estudos sobre filosofias orientais, alimentação natural e outras soluções alternativas. Como os participantes habituais eram bem-humorados, e razoavelmente não bitolados, passou um fim de semana bem agradável. Procurou na gaveta da mesinha do telefone - que era um verdadeiro sumidouro de cartões de visita – e encontrou um cartãozinho caprichado feito de papel artesanal. Era cedo, mas ligou mesmo assim e conseguiu falar com a proprietária do sítio que já estava acordada há muito tempo e disse não haver problema algum em recebê-la se ela não se importasse de ter que dividir o espaço comum com outras pessoas, pois estava hospedando um grupo pequeno que só ocupava uma parte dos alojamentos. Valeriana olhou para o embrulhinho em cima do sofá e confirmou imediatamente a reserva. Disse que não iria almoçar com eles, pois queria aproveitar a parte da manhã para caminhar pela trilha e fazer um piquenique à beira do riacho. “Não, desta vez não vou levar meu cachorro comigo, já faz algum tempo que ele morreu”, respondeu e agradeceu a atenção, mudando de assunto. Chegou no lugar duas horas depois, um pouco enjoada por causa das curvas da estrada. Respirou o ar bom da serra que em agosto ficava ainda mais fresco, pegou uma bolsa onde havia colocado algumas peças de roupa e a sacola dentro da qual repousava seu querido Manu. Passou rapidamente pela casa principal, saudou o casal de anfitriões e pegou as chaves da casinha isolada que iria ocupar. Escolheu aquela porque ficava perto de onde começava a trilha que pretendia seguir até o bosque. Não tinha experiência com cadáveres e estava com medo de que ele começasse a cheirar mal e alguém pudesse perceber. Passou pela casinha para deixar a bolsa. Acenou de longe para cumprimentar algumas pessoas que não conhecia e reparou que estavam vestindo roupas longas e coloridas. Pensou quanto eram patéticas aquelas pessoas que liberavam durante alguns dias a própria excentricidade para depois voltarem correndo para as suas vidas banais. “Mas do que é que eu estou falando”, repreendeu-se logo em seguida, “quem sou eu para criticá-las? Estou carregando um cachorro morto dentro de uma sacola para enterrá-lo escondido em um lugar que não me pertence porque a essa altura da vida tenho que viver em um apartamento de merda em uma cidade caótica e desumana onde ninguém se importaria se eu jogasse o Manu no lixo depois de passar dezesseis anos ao seu lado. Que cada um faça aquilo que quiser da própria vida. Eu também não estou nem aí.” Acelerou o passo. Só pensava em chegar logo em um ponto em que a trilha parava de beirar o rio e penetrava em um bosque onde a vegetação se tornava ainda mais espessa. Lembrava-se de que algumas centenas de metros mais adiante havia uma clareira em formato circular e que do outro lado a trilha voltava e beirar o rio. Ao chegar na clareira, achou que já havia caminhado o bastante. Olhou ao redor e resolveu entrar no bosque à direita, fora da trilha, pois ali a vegetação parecia oferecer um pouco mais de espaço em relação às outras direções. Caminhou com dificuldade mata adentro até que se deparou com uma grande árvore, muito alta. Pousou delicadamente a sacola encostando-a em uma raiz saliente. Agachou-se e passou a mão sobre a camada de folhas para abrir espaço. Foi quando percebeu que não havia levado nenhum utensílio para cavar o buraco. “Eu não acredito que esqueci dessa parte. Que idiota! E agora, como eu vou fazer?” Pegou um graveto e tentou usá-lo para remover a terra, mas era dura demais. Tentou com uma pedra pontiaguda e conseguiu fazer alguns riscos na superfície. Deixou a pedra cair no chão, desanimada. Sentou-se sobre uma raiz que fazia uma curva ascendente antes de mergulhar no chão. Insetos rondavam a sacola e Valeriana percebeu que algumas moscas mais atrevidas tentavam encontrar uma passagem para entrar. Não poderia ficar ali sem fazer nada. Percorreu com os olhos o mosaico de luzes e sombras que decorava o tapete de folhas secas no chão e notou que mais adiante havia uma falha e a terra parecia estar mais úmida. Pegou a pedra e aproximou-se do local. Ali era muito mais fácil de cavar. Em poucos minutos formaram-se vários montinhos de terra nas beiradas e o buraco foi ficando mais fundo. De repente Valeriana parou de cavar. A pedra havia batido em alguma coisa que ela não conseguia definir o que era. Removeu mais um pouco de terra com as mãos e foi descobrindo um objeto preto de forma alongada. Era um tubo de plástico, daqueles usados para guardar projetos. Era por isso que a terra estava fofa. Algum idiota tinha ido lá recentemente enterrar aquele canudo de plástico. Ficou em dúvida sobre o que fazer. Usou a pedra como alavanca e puxou o tubo para fora do buraco. “Que droga. Não posso enterrar o Manu junto com isso aqui. Pode ser que alguém venha desenterrar o bagulho depois de algum tempo. E se for desse pessoal que está hospedado aqui? Deve ser, a terra estava muito fofa, acho que foram realmente eles que fizeram isso. O que é que eu faço agora?” Atirou o tubo no chão com raiva e continuou a cavar, alargando mais o buraco. Quando o seu braço já estava afundado acima da altura dos cotovelos, parou de cavar. Pegou a sacola, abriu o zíper e, com cuidado, tirou de dentro o corpinho embrulhado. Ajoelhou-se e colocou-o no fundo do buraco. Jogou um punhado de terra sobre ele, disse algumas frases desencontradas que eram uma mistura de orações que não recordava muito bem, de palavras que descreviam quanto era belo o céu para os cachorros e de como ele havia sido bom e querido. Enxugou as lágrimas com as mãos sujas e o seu rosto ficou todo manchado de marrom. Cobriu a cova com a terra acumulada nas beiradas, compactando-a bem. Não queria que o túmulo fosse violado. “Nunca se sabe quando vai aparecer alguém e desenterrar aquilo que você enterrou” pensou consigo mesma olhando o tubo de plástico jogado no chão. Achou que seria melhor colocar uma pedra bem pesada por cima para desencorajar os intrusos. Não muito longe dali havia uma que parecia perfeita. Era muito pesada, teria que ser rolada. Imprecou todas as vezes que a pedra quase amassou os seus dedos, pois era difícil controlá-la. Finalmente conseguiu colocá-la no lugar. Para dar a impressão de que o local não havia sofrido modificações recentes, espalhou folhas ao redor da pedra. Cada músculo do seu corpo estava dolorido. Não sabia que horas eram. Achou que era hora de voltar. Precisava comer, sentia-se fraca. Chutou sem querer o tubo preto de plástico. Quis deixá-lo ali onde estava. “Que diferença faz estar enterrado ou não? Está bem fechado e este plástico vai durar mil anos.” Deu alguns passos e não conseguiu seguir adiante. “E se for importante para aquelas pessoas que ele fique enterrado? Desde quando eu perdi o respeito por aquilo que é importante para os outros?” Voltou e pegou o tubo. Enterrá-lo em outro lugar naquelas condições era impossível. Teria que deixá-lo escondido em algum lugar e voltar no dia seguinte com uma pá. Prestou atenção nas mãos que seguravam o objeto. Estavam cobertas de terra e machucadas, precisava lavá-las. Percebeu que o tubo estava rachado. “Deve ter acontecido quando eu bati a pedra sobre ele. “E agora, vou enterrá-lo assim mesmo? E se forem coisas importantes? Vão estragar.” Caminhou até a beirada do rio carregando o tubo e a sacola vazia. Sentou-se no chão. Talvez fosse melhor levar o tubo consigo e perguntar se pertencia a alguém que estava hospedado ali, explicar o que aconteceu e pedir desculpas. “Não, não tenho coragem de fazer isso. Não posso contar para todo mundo que vim aqui enterrar meu cachorro, os donos do sítio vão se ofender por eu ter escondido isso deles. Pelo jeito eu estraguei o trabalho que essas pessoas vieram fazer aqui. Com que cara eu vou falar isso para elas?” Resolveu abrir o tubo para ver o que tinha dentro. Raspou com as unhas marrons a fita adesiva que selava a tampa até que conseguiu encontrar a parte final e puxou, desenrolando todas as voltas de fita que haviam sido dadas ao redor da abertura. Removeu a tampa e virou a boca do tubo para baixo, deixando cair o conteúdo sobre a relva ao seu lado. Havia vários papéis escritos à mão, cada um com uma caligrafia diferente. Sentiu-se desconfortável em mexer naquilo. Uma pessoa na minha idade deveria ter segurança suficiente para saber se comportar sem trair a confiança dos outros, sem ter vergonha de assumir as próprias atitudes. Pensou que já havia suportado tantas situações difíceis na vida que já estava na hora de aprender a assumir os próprios atos, sem subterfúgios. “O que vai adiantar ver o que está escrito nesses papéis? Quem eu penso que eu sou para julgar se são coisas suficientemente importantes? Suficientemente importantes para quê? Para justificar o papelão que eu vou fazer contando para todo mundo o que eu fiz? Se eu acho que essas pessoas não vão entender as minhas razões, por que eu me importo tanto com o que elas vão pensar de mim? Elas não me conhecem, eu não as conheço e já tenho certeza de que ninguém vai conseguir se entender. Somos todos humanos e de vez em quando cometemos erros. É isso aí. Faz parte da nossa natureza. Fomos feitos desse jeito e ninguém sabe por quê. Vou lá contar que me apropriei indevidamente de um pedaço de terra alheia com a melhor das intenções para não ter que envolver ninguém nessa história de enterro de cachorro, porque achei que a nossa amizade não era suficiente para isso. Vou pedir mil desculpas. Vou dizer para aquele pessoal estranho que roubei o buraco deles por uma infeliz coincidência e me desculpar muito também. Essas coisas acontecem. Depois eu vou até a cidade mais próxima tentar achar uma porcaria de tubo igual a esse para comprar, volto para o sítio, empresto uma pá para cavar aquela terra dura do cacete, caminho até aqui novamente e enterro tudo de novo, perto de onde ele estava antes. Peço desculpas novamente para aqueles sobreviventes de Woodstock por ter arruinado o fim de semana legal deles. O sonho acabou, baby. Acabou há muito tempo, viu?” Sentiu-se muito cansada. Estava suja de barro da cabeça aos pés. Aproximou-se mais da água e começou a passar as mãos na superfície para dissolver a terra. As pequenas ondulações que se formavam desapareciam rapidamente, pois a correnteza as desmanchava. Suas mãos estavam machucadas e algumas unhas tinham-se descolado da pele e aprisionavam alguns milímetros de sujeira. Tirou as mãos da água e secou-as na parte interna da blusa. Teve uma ideia. Recolheu os papéis e colocou-os de volta no tubo. Fechou a tampa e enrolou a fita adesiva ao redor da abertura. Não aderiu muito bem, mas não tinha importância. Levantou-se com dificuldade, pois seus músculos precisavam descansar, pegou o tubo e a sacola e fez o caminho de volta até a clareira. Encostou o tubo em uma árvore, atravessou a clareira e pegou a trilha mais adiante, caminhou por mais alguns metros e encontrou novamente o rio. Mergulhou a sacola na água e deixou que enchesse até a metade. Viu que conseguia carregá-la sem problemas. Voltou à clareira, pegou o tubo, entrou na mata e escolheu um lugar próximo ao túmulo do cachorro. Afastou as folhas, despejou aos poucos a água no chão e a terra a absorveu completamente. Pegou a pedra pontiaguda e cavou longitudinalmente na mesma direção do outro buraco. A terra molhada não opôs resistência. Repetiu a operação mais duas vezes e o buraco ficou suficientemente fundo. Colocou nele o tubo com a rachadura voltada para baixo, onde havia feito uma concavidade para deixar um espaço vazio entre a rachadura e a terra, para evitar a infiltração de umidade. Fechou o buraco compactando bem a terra, pegou a sacola e foi embora. No caminho encontrou o grupo de pessoas com roupas coloridas que estava indo até o rio. Cumprimentaram-na com olhares preocupados e perguntaram se ela estava bem, se precisava de ajuda. Ela inventou uma história dizendo que levou um tombo na beira do rio e caiu no barro, mas que estava tudo bem. Só queria ir para casa tomar um banho quente. Agradeceu e deixou que seguissem o seu caminho em paz. Resolução de problemas. Era perita no assunto. Fazia parte da sua profissão. Treinava as pessoas para isso. Afinal, era suficientemente inteligente para não ter que incomodar as pessoas com a verdade.

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