segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A caminho da estação

Quando bati a porta, enfiei a chave na fechadura e fiz com que completasse três voltas. Tirei a chave da porta, dei as costas para ela e segui em frente pelo corredor. Desci as escadas do prédio, como se fosse um dia normal, igual a todos que vivi durante esses últimos anos. É engraçado como foram aparecendo novas marcas na parede com o passar do tempo, em relação às quais ninguém se importava muito, talvez porque tenham surgido de mansinho, sem pedir licença, mas sem fazer alarde. Fui descendo os degraus prestando atenção pela primeira vez naqueles desenhos feitos pelo acaso. Apertei a bolsa contra o corpo e senti bem as formas das coisas que estavam jogadas lá dentro. Havia de tudo: carteira, batom, desodorante, lixa de unha, remédios, papéis de bala, porta-moeda, escova de cabelo, envelopinho de cartão com linhas multicoloridas e uma agulha, uma porção de recibos de supermercado que precisavam ser jogados no lixo, a chave de casa. Hoje não vou para o trabalho. Ainda bem, estou tão cansada daquilo! Acho que nunca mais vou colocar os pés naquele escritório. Não avisei ninguém. Eles que se arranjem com o pessoal que está por lá. Sempre tem gente nova querendo uma oportunidade para mostrar que sabe fazer as coisas tão bem quanto os dinossauros que estão lá desde tempos imemoráveis. Eu sou um desses raros exemplares. Sei que é assim que eles me veem. Muitos ficarão felizes se eu nunca mais voltar: sobrará mais espaço. Alguns pensarão que perdi a cabeça em abandonar tudo desta maneira. “E a aposentadoria dela, como é que vai ficar? Vai viver do que daqui para a frente?” vão se perguntar com cara de nojo. “Aquela ficou louca” dirão em voz baixa. “Bem que eu vinha notando algo de estranho nela ultimamente” vão cochichar com aquele ar de quem sabe das coisas. Não vou mais voltar lá, nunca mais. Pouco me importa o que vai acontecer. Vou pegar o trem na estação. Aquele das dez e meia da manhã. Acho que antes vou parar naquele bar e comer um pastel de queijo. Sabe há quanto tempo eu não como pastel de queijo a esta hora? Nem me lembro mais qual foi a última vez. Você sempre colocava molho de tomate com cebola no seu. Sempre havia molho à disposição dos clientes em uma vasilha colocada sobre o balcão, sabia-se lá quanto tempo aquilo havia ficado exposto ali. E a colherzinha de plástico que todo mundo usava? Tinha gente que mordia o pastel e jogava mais molho para dentro com a tal colherzinha. Ela encostava na mordida, mas ninguém ligava. Era colocada de novo dentro da vasilha do molho, e tudo virava tempero. Vou comer um pastel no bar, vou sim. Talvez eu coma logo dois. Agora, caminhando pela calçada, vejo que coloquei sapatos inadequados. O salto não é muito alto, mas não dá para andar rapidamente neste chão irregular. Eu gosto de caminhar olhando para frente, não gosto de olhar para baixo o tempo todo, com medo de tropeçar. Coloquei esses sapatos porque ficam bem com as meias-calças, do jeito que você gostava. Elas escondem as imperfeições das minhas pernas, que certamente não são tão bonitas como eram quando eu tinha trinta anos, quando você foi embora. Mas não são tão ruins assim. Você vai ver que eu soube envelhecer bem. Hoje estou notando tantas coisas pelo caminho. Vejo jardins por entre as grades, e alguns são bem enigmáticos. Seguem uma ordem estranha, conforme o gosto de quem foi plantando tudo misturado, sem fazer uma previsão do tamanho que as coisas iam ter depois de crescidas. Observo que algumas flores ficam escondidas por trás das folhagens, e não aparecem muito bem. Uma pena, vão durar tão pouco, deveriam mostrar-se em todo o seu esplendor. Mas que bobagem estou dizendo! Para as flores, quanto importa se conseguimos enxergá-las ou não? Isso não tem nenhuma importância para elas, absolutamente. Desculpe-me. Estou tagarelando como aquelas espertalhonas do escritório. Na verdade, sei que acabei adquirindo algumas manias tendo que conviver todos os dias com aquelas pessoas. Mas não se preocupe. Apesar disso eu sempre conservei meu senso crítico intacto. São apenas pequenos deslizes sem importância, lhe garanto. Você não vai ter uma surpresa ruim quando nos reencontrarmos. Continuo a mesma pessoa que você amou e desamou. Quando penso nisso, vejo como as coisas são engraçadas. Para dizer a verdade, me surpreendi tremendamente ao receber uma carta sua depois de tanto tempo. Há anos não recebo uma carta de verdade pelo correio. Passam-se dias antes que eu resolva esvaziar a caixa de correspondência na portaria do prédio, pois nunca chega nada de interessante. Quando vi que entre as contas a pagar e as propagandas inúteis havia um envelope manuscrito, fiquei até emocionada. Minhas mãos começaram a tremer e a respiração acelerou mesmo antes de ler o seu nome. Não estou querendo ressaltar que não me importava saber quem era o remetente, que receber qualquer coisa que fosse mais pessoal já seria o suficiente para me comover. Só estou dizendo que foi assim que aconteceu. Quando li seu nome, meu coração parou por um instante. Agora deu sinal verde para os pedestres e eu tenho que atravessar a rua com a multidão. Estou olhando discretamente para os lados e vejo que estou rodeada por pessoas jovens. Parecem saber muito bem para onde estão indo. Mas sabem mesmo? Têm noção de onde seus passos seguros as estão conduzindo? Sabem realmente quem são em meio a toda essa gente, nos braços dessa cidade que muda a todo momento? Depois de todos esses anos já não sei dizer se tenho tanta certeza de alguma coisa. Talvez as certezas sejam dádivas reservadas aos mais jovens. Eles têm de acreditar que as coisas têm um sentido para continuarem a levar a vida em direção a um futuro. Depois de uma certa idade, as pessoas passam o bastão e não se importam mais com isso. Advir é uma bela palavra, mas não combina mais comigo. Lembro de você naquela esquina, me esperando para tomar um café. Eu saí do trabalho e você estava lá, me esperando. Eu o vi de longe e reconheci imediatamente as suas formas. Não. Na verdade, reconheci o seu jeito de ficar parado, encostado na parede com um pé apoiado ao muro. Naquele momento eu achei que teria a vida toda pela frente e que seria feliz. Eu soube, com total clareza, que se tivesse sido reservado para mim um destino diferente daquele que eu podia entrever, eu seria capaz de dar um nó nele e estrangulá-lo para que tudo acontecesse do modo que eu pretendia que fosse. Ali, nos passos que nos separavam, coube toda uma vida. Eu engravidei do futuro que teria com você mesmo antes de me deixar tocar por suas mãos. Aquele bar não existe mais. Agora tudo ali está repleto de vitrines, é uma loja bonita. Olhando para o vidro com essa luz da manhã eu apareço como um fantasma em meio aos manequins estáticos. Sou apenas um reflexo enquanto eles são reais. Quando de relance encontro meus olhos, quase não me reconheço neles. Desvio rapidamente o olhar, com a sensação de que eles querem me falar algo que eu não quero saber. É estranho, quase divertido. Não posso ficar muito tempo parada aqui, senão vai ficar tarde. Tenho que chegar à estação e ainda faltam alguns quarteirões. Quanto tempo faz que eu não pego um trem? Nem me lembro mais. Costumávamos ir para o interior na época do Natal, visitar seus pais, você se lembra? Eu ficava quieta durante horas. Você dormia tanto! Eu não. Olhava pela janela a paisagem passar sem sentir que era eu que passava. As coisas pareciam movimentar-se em círculos. Tudo o que estava mais próximo girava muito rapidamente e à medida que as coisas ficavam mais afastadas do trem, a velocidade delas diminuía. Eu era o olho do furacão, imóvel. Você se queixou uma vez e eu não dei atenção. Você disse que a vida era monótona ao meu lado. Eu me lembrei da janela do trem. Achei que você estava correndo em círculos ao meu redor e eu era o olho. Do furacão. Mas atrás do olho não havia nada. Para você, nada. Abriu a janela e saltou, como um gato. Livre, cheio de ideias. Eu fiquei com o apartamento todo para mim. Você não quis nada. Para dizer a verdade, você saiu pela porta. Bateu a porta quando saiu, eu me lembro bem. Aquele barulho aparecia em meus sonhos com muita frequência nos primeiros tempos depois da sua partida e me fazia acordar assustada. Havíamos planejado viajar naquele verão. Eu queria fazer alguma coisa que você achasse estimulante e comprei as passagens em segredo. Era uma surpresa. Estava pagando as últimas parcelas quando você foi embora. Não deu tempo de mostrá-las a você. A porta bateu e elas estavam escondidas na gaveta, embaixo de tudo. Fiquei em dúvida pensando que se eu as tivesse mostrado antes, talvez você não tivesse ido embora. Talvez me desse mais tempo. Mais tempo para nós dois. Não me lamento pelas passagens. Eu não queria viajar para tão longe. Não me importava com isso. Meus sapatos estão me matando. Acelerei o passo e percebo que não os deveria ter escolhido. Não vale a pena machucar-se por futilidades. Mas não adianta saber disso, no fim a gente sempre acaba errando de novo, não é mesmo? Estou imaginando como você estará. Sabe, eu fiz e desfiz a mala umas vinte vezes durante a noite. Tirei tudo do armário e joguei em cima da cama. Espirrei como uma doida, com alergia, pois ali havia coisas guardadas há anos. Um montão de bugigangas! Tentei vestir algumas, mas não me ficavam muito bem. Não sabia o que colocar na bagagem e acabei desistindo da mala. Para que bagagem, não é mesmo? Não quero carregar pesos comigo. Há anos não vou até a estação e começo a achar que não estou no caminho certo. A uma certa altura, devo virar à esquerda, depois à direita e seguir em frente até a avenida. Espere que daqui a pouco vou me lembrar. Deixe-me ver se encontro uma placa com a indicação. Vou ter que perguntar a alguém. É preciso tomar cuidado para pedir informações, pois quando percebem que a pessoa está meio perdida, se aproveitam. Já fizeram isso comigo. Quer saber de uma coisa? Não perguntarei para ninguém, vou seguindo em frente até encontrar uma indicação. Não estou muito distante, sei disso. Morei aqui a vida toda, como posso me confundir? Bobagem, foi só um momento em que as coisas se embaralharam um pouco, mas já passou. Você vai estar esperando na estação? Ou vai chegar em cima da hora, com o trem quase partindo? Não me faça ficar ali aflita a esperar. Não me faça pensar que você não vem, eu não gosto desse tipo de brincadeira. Você sabe disso. Mal posso esperar para ver como está, depois de tanto tempo. Vou encostar a cabeça no seu ombro e vou ficar horas assim, quieta, só respirando. Há uma eternidade não sinto aquela sensação. As coisas rodando, mais rápidas, mais distantes, mais lentas. Eu, quieta. Você dormindo ao meu lado. Não consigo mais caminhar com esses sapatos horrorosos. Por que eu coloquei sapatos assim, por quê? Onde eu estava com a cabeça? Que rua é esta agora? Mudaram as ruas de lugar, fazem sempre isso de uns tempos para cá. É uma brincadeira que fazem para confundir as pessoas. Eles são todos parecidos com você. Brincam comigo. Mudam tudo de lugar e a gente tem a sensação de não entender mais nada. Mesmo assim as cartas continuam a chegar nas casas. Como é possível? Deixe para lá. Chegam porque têm endereço certo, porque o mundo não está doido, por isso chegam onde devem chegar. Quando alguém escreve direito, elas chegam, porque alguém quis que elas chegassem. Alguém escreveu palavras esquecidas que precisavam ser ditas, dobrou o papel, colocou no envelope, escreveu o endereço, levou ao correio, pagou o selo. A sua carta está aqui na minha bolsa. Não é mais sua, é minha. Você já deve estar na estação. Eu já estou quase lá. Não vá embora, as passagens estão compradas. Tirei-as da gaveta hoje de manhã e ainda estavam cheirando a novas. Dessa vez vou mostrá-las e você vai vê-las. Vai pegá-las e cheirá-las e depois vai me abraçar e eu vou encostar a cabeça no seu ombro e tudo vai ficar bem. Tirei os sapatos e joguei-os do outro lado da rua. Quase atingiram algumas pessoas. Não posso fazer nada, eles estavam me matando. Agora vou conseguir chegar em tempo. As meias-calças estão desfiando e enroscando um pouco na aspereza do chão, mas não me importo. As calçadas não são preparadas para isso. Ninguém pensa que elas precisam ser alisadas com cuidado, não podem ser ásperas desse modo, não deveriam ser assim. Estão sujas, as meias ficaram sujas e molhadas. Ali na frente tem um cruzamento. Há tanta gente andando na direção contrária que fica difícil caminhar. Eles estão fazendo isso de propósito? Devo insultá-los? Assim não é possível, eles não me dão espaço! “Saiam do meu caminho, seus bastardos! Vamos! Deixem-me passar!” Agora melhorou, me estão deixando passar sem problemas. Se eu for gritando, eles saem da minha frente. Afastam-se como se fossem o Mar Vermelho. Vejo outra enorme vitrine e a minha imagem passa voando por ela. Eu sou uma imagem que não deixa rastros. Eu sei voar. Eu vou chegar em tempo, meus pés quase não tocam mais o chão. Já consigo avistar a avenida. Mais adiante fica a estação. O que estão fazendo agora? Acho que algumas pessoas estão andando atrás de mim. Talvez me engane. Pode ser apenas uma impressão. Por que iriam atrás de uma pessoa como eu? Não, certamente também querem pegar o trem e estão aproveitando o caminho que vou abrindo. Não sei. Acho que me enganei. Estão mais próximos agora e tentam me fazer parar. Eles não entendem que já é tarde e eu não tenho tempo para conversar. “Saiam da minha frente!” Espere-me meu querido, não vá embora. Por favor. Falta tão pouco! Vou bater neles com a bolsa, não posso ficar aqui parada. Essa droga dessa bolsa tem a alça curta. Por que não peguei uma maior?  “Tirem as mãos de mim! Estou avisando! Eu não estou nervosa, mas me deixem passar! Agora!” Vocês não entendem, não entendem nada. Eu já esperei tanto tempo. Não tenho nem mais um segundo. Eu sou uma gralha, eu sou gritos e asas. Você enviou a carta e já está aborrecido. Estou vendo a sua cara de desgosto. “Soltem o meu braço! Que hospital, vocês estão loucos? Eu não vou para nenhum hospital. Soltem agora o meu braço!” As luzes giram rapidamente, vermelho, cor de laranja. O mar se fechou ao meu redor. Minha voz não tem mais efeito, não se ouve nada. Eu tento e não sai nada. Como eu vou fazer para que você saiba que eu estou a caminho? Como eu vou fazer agora? Assim não vou mais conseguir chegar. Estou usando toda a minha força para me soltar e não consigo. Eles fizeram alguma coisa comigo, as coisas começaram a borrar e a desaparecer. Eu vou desaparecer. Não, não...


Mariângela Souza Ragassi

Assisi, agosto de 2016

Conto