sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A Ira



(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)


Ira: palavra que provém do latim ira. Pecado capital definido comumente como “emoção excessiva e violenta, paixão despertada por um sentimento de injustiça ou erro”. Quando a cólera se manifesta como justa indignação e dentro de limites razoáveis, ou seja, no momento adequado, contra quem a merece e com intensidade prudente, é uma virtude, não um vício. Torna-se um pecado quando está associada a motivos egoístas, alimenta sentimentos nefastos e provoca reações desastrosas. Gera insulto, perturbação, indignação, clamor, cizânia, disputa, blasfêmia, assassinato. Sinônimo: belicorreia: (belicosidade + -rreia) designativo de uma disfunção psicológica caracterizada pelo fluxo contínuo de ódio, raiva, cólera, fúria, violência e vingança. É o forte desejo de causar mal ao outro e um dos grandes responsáveis pela maior parte dos conflitos humanos. Em acepção política, é designativo de um índice atribuído aos países conforme a sua capacidade de responder belicamente a uma agressão; o índice é expresso em valores de 1 a 100 e é calculado com base em vários fatores, entre eles, o orçamento reservado à compra de armas. Através deste índice determina-se a relevância dos países para a resolução de conflitos internacionais e a sua capacidade de garantir a paz mundial. Por volta do século IV D.C., a classificação dos principais vícios humanos em pecados capitais distinguia um oitavo pecado: a Tristeza, que mais tarde foi incorporado à Ira, sendo considerado, então, parte dela. Antídoto ou virtude: paciência.



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Noemi havia escovado os dentes depois do jantar e aprontava o material para a aula do dia seguinte. Sentia-se um pouco desanimada com a ideia de ter que acordar cedo para ir à escola. Estava com o saco cheio da escola, ainda bem que faltava pouco para terminar o terceiro ano e em breve ela estaria fora. Preferia mil vezes ficar no seu quarto ouvindo música e lendo. Adorava ler, mas não qualquer coisa. Já havia adquirido bastante experiência para distinguir textos bons de textos ruins. Era capaz de se resignar a ler um livro de quatrocentas páginas apenas para conhecer mais profundamente o estilo de um escritor, mesmo que não fosse o seu gênero preferido. Sabia a diferença entre respeitar a obra de um autor talentoso que não era do seu agrado e simplesmente achar que se tratava de uma obra ruim. Eram coisas completamente diferentes. Pena que não conhecia muitas pessoas com as quais pudesse conversar sobre esse assunto. Costumava ficar impressionada com a imbecilidade dos seus colegas de classe. A maioria deles era completamente idiota. Às vezes pensava que seria melhor se estudasse em um zoológico. Pelo menos ali não haveria expectativas frustradas de estabelecer um contato com criaturas hipoteticamente inteligentes; uma zebra poderia continuar tranquilamente a ser aquilo que sempre foi, sem decepcionar ninguém. Seria um ambiente bem mais divertido e honesto. “A fauna toda comendo e cagando sem que ninguém a perturbasse, que beleza.” Ela achava que a única explicação para aquela situação é que algumas pessoas nascem para passarem a vida inteira fazendo só aquilo. Para pensarem que tinham um pouco de liberdade bastaria que tivessem um trabalho, então passariam de manhã de uma jaula para outra, fariam alguma coisa repetitiva sem sentido durante o dia todo, comeriam e cagariam novamente, e de noite voltariam satisfeitos para as suas jaulas-dormitórios. Suas jaulas poderiam ser próprias ou de aluguel. “Os humanos são bichos burros mesmo” pensava Noemi. “Os bichos do zoológico não pagam nada pelas jaulas onde vivem porque estão em cativeiro e ficam expostos à curiosidade dos outros, que se divertem ao observá-los em um espaço reduzido, como se um ser selvagem que renunciasse à própria liberdade precisasse ganhar um bônus vitalício para morar de graça. Na nossa sociedade é preciso cometer algum crime bem horroroso para ganhar esse bônus. E depois de trinta anos o bandido tem que sair e logo cometer outra barbaridade qualquer para ver se consegue mais um bônus de trinta anos. “Ah, mas tem sempre um espertinho que vai dizer com a boca cheia de papilas gustativas impregnadas de sabedoria: mas isso não é vida, o sujeito tem que renunciar à própria liberdade. Me dói o estômago ouvir esse papo furado. Alguém por acaso sabe o que é liberdade? Hem? Alguém consegue me mostrar de modo coerente – atenção, eu disse de modo coerente – o que é liberdade? Posso até esperar o tempo que for necessário. Você tentou, não é, seu idiota? Como é possível ser livre e se prender às rédeas da coerência ao mesmo tempo? Você é só mais um que acha que sabe o que é liberdade, mas nem imagina o que seja isso. Você vive se reprimindo com medo de perdê-la, mas nunca a experimentou na sua vida. Por que você acha que o céu é infinito? Ele está em cima da cabeça de todo mundo, e quando você sai da jaula ele começa logo depois do seu fio de cabelo mais alto e não tem mais fim, e você nunca reparou que tem a sorte de ser o prolongamento dessa coisa infinita. Você é a parte do céu que caminha sobre a terra. Você é livre por natureza, seu imbecil, livre. Está confuso? Quando você era pequeno disseram que a sua liberdade termina onde começa a do outro, não é mesmo? Tem que ter respeito pelo próximo. Você quer falar de liberdade ou de respeito? Liberdade não é um espaço que alguém rouba de outra pessoa, não é um terreno com escritura no qual você coloca uma cerca de arame farpado. O que seria ter respeito pelo próximo? Quem é o próximo? Você me respeita? Se disse que sim, está mentindo. Você não me conhece, como pode me respeitar? Respeita porque sou um componente da sua espécie, assim, de modo impessoal e coletivo? E você acredita mesmo que é capaz de respeitar os componentes da sua espécie? Faça-me rir. Você confunde respeito com distância. Para você aquela frase escrita na rabeira dos caminhões que diz “mantenha a distância” é a ideia mais bem elaborada daquilo que você consegue definir como respeito. Para você, ter liberdade e respeito é manter a devida distância dos outros. Não tem nada a ver com ser uma parte do infinito e deixar que os outros também sejam. Você quer uma casa bem grande, com cômodos enormes, bem separada da rua, do seu vizinho, do mundo. Você quer ter dinheiro suficiente para pagar dignamente por todos os centímetros que separam você do mundo e das pessoas da sua amada espécie. Você precisa de tudo isso porque não tem ideia do que seja respeito pelo próximo. Nunca experimentou nada parecido. Ah! Já sei. São os outros que não sabem respeitar você. Pelo menos nessa deficiência a nossa espécie se reconhece como coletividade. Precisamos conquistar o respeito dos outros do mesmo modo que os leões na savana. Somos territoriais. Precisamos mostrar as nossas armas e expor toda a nossa capacidade de reagir com violência, senão ninguém nos respeita. Precisamos de reis e governantes na mesma medida em que nos comportamos como animais selvagens. Pensando bem, acho que somos só isso mesmo. Você é capaz de me dizer qual a diferença entre um governante que tem um exército armado até os dentes e um leão que defende seu território? É que um leão luta sem ter um exército armado até os dentes. Reformulo a minha afirmação. Pensando bem, acho que não sabemos nem mesmo ser selvagens. Somos patéticos. Somos a grande piada do universo. Às vezes imagino se em outros planetas os seres mais evoluídos não se divertem às nossas custas. Bom humor é uma característica de seres evoluídos, não é? Bem, talvez eles tenham instalado uma rede de câmaras de vídeo por aqui no estilo Big Brother e projetem cenas do nosso cotidiano nas paredes de antigas jaulas de zoológicos e cadeias que eles desativaram há séculos. Talvez tenham instalado câmaras microscópicas no corpo dos grandes poderosos do mundo e transmitam ao seu público imagens de reuniões de cúpula nas quais eles expõem, satisfeitos como porcos chafurdando, as importantes medidas que pretendem adotar para salvar o mundo de um desastre iminente. Depois mostram imagens da vida privada dos mesmos poderosos falando e agindo de modo contrário em relação a tudo o que afirmaram antes. Imagine só o que eles devem tagarelar quando pensam que ninguém está ouvindo: eu não quero mais ouvir falar de orçamento para ajudar esses mortos de fome. Por que eles não morrem de uma vez e param de encher o saco? Você sabe que se as pessoas improdutivas morressem sobrariam mais recursos para quem conta de verdade. Não importa se são crianças ou idosos. Qual o custo-benefício desta brincadeira de ficar prolongando a vida de gente inútil? A sociedade não foi organizada para esse tipo de coisa. Está vendo este mapa? Se tudo continuar conforme as nossas previsões, em breve vamos invadir aqui porque a nossa ideia de colocar este trouxa contra aquele outro deu certo e eles estão se matando em um ritmo decente. Claro, podemos tomar algumas medidas para acelerar um pouco o processo. Vamos mandar mais armas para eles? Acho uma boa ideia. Vamos fazer o possível para lucrarmos bastante dessa vez. Não se preocupe com a morte de civis. Ninguém mais liga para isso. Há um outro problema. A população está meio agitada com essa história da educação. Existem uns lunáticos publicando umas matérias subversivas que podem provocar alguns protestos. Tente desmoralizá-los e, se não der certo, faça do jeito tradicional mesmo, desça o cacete em quem estiver reclamando. Se a tensão aumentar, vai ser fácil desviar a atenção. Entre em contato com algum grupinho radical e incentive os fanáticos a matarem um punhado de pessoas em algum lugar público. Deixe os carniceiros da imprensa terem acesso a toda a operação de repressão ao terrorismo. Eles adoram, também lucram muito com isso. Divulguem bem o rosto dos bandidos cretinos durante a caçada. As multidões precisam ver um rosto. Precisam ter um rosto sobre o qual cuspirem. Explorem bastante a história pessoal das vítimas. Peça para mostrarem bem os corpos destroçados e as famílias das vítimas chorando. Isso é indispensável. Se houver filhos pequenos, melhor ainda. Podemos até fazer um funeral de estado, colocando as vítimas como heróis. Heróis do quê? Sei lá, de qualquer coisa que se oponha àqueles que foram capturados como criminosos. Heróis da Liberdade. Não ficou bom? É muito genérico? Ah, as vítimas não se opunham a nenhuma causa, só estavam passando ali no momento errado. Então podemos colocar “Heróis da Porra do Azar”. Também não ficou bom? Então pense você em alguma coisa, seu incompetente! E aquela questão das terras devolutas, o governo de lá já liberou a ordem para tomar posse de tudo? Ainda não? Eu já falei que isso era urgente! Já está tudo pronto para começar a escavar. Há anos estamos implantando este projeto e agora não dá mais para prolongar essa história. Cada dia que passa é dinheiro jogado fora. Está me dizendo que não conseguem tirar dali meia dúzia de desgraçados que não querem se mudar para a cidade? Agora me responda: por que eles insistem em ficar naquelas terras se nós já envenenamos tudo e não tem mais nada que cresça naquele deserto? Por quê? De onde eles estão tirando água para beber? Ah, uma ONG fez um poço para eles. Puta que o pariu! Por que vocês não impediram? Eu movo montanhas para foder com o lugar e vocês não conseguem impedi-los de receber ajuda? Agora tenho que foder tudo de uma vez. Mande alguém lá para inspecionar o poço e dizer que a água não é boa. Se reclamarem, coloquem alguma coisa na água para que eles nunca mais queiram usá-lo. Sei lá que tipo de coisa, fale com o pessoal competente. Não me interessa se eles só vão cagar as tripas ou se vão morrer. Vejam o que é melhor e mais rápido. Se achar que a morte de seis famílias naquele fim de mundo vai chamar a atenção de alguém, deixe-os vivos e ofereça a mesma ninharia que deu para os outros como ajuda humanitária para acelerar a transferência deles. Faça isso através daquele órgão internacional que sempre trabalha com a gente. Isso, aquele. Só não deixe que eles chamem muito a atenção. Eu sei que eles adoram fazer propaganda com este tipo de coisa, mas, você sabe, discrição é a alma do nosso negócio.” Noemi fechou o zíper da mochila de modo tão brusco que ele saiu na sua mão. “Que bosta de zíper! Eu falo para minha mãe não comprar mais essas porcarias descartáveis produzidas por escravos lá do outro lado do mundo. É tudo malfeito de propósito, para durar pouco. Consomem matérias-primas como gafanhotos. Eu odeio tudo isso aqui, tudo! É tudo uma grande bosta!” Jogou a mochila no chão e chutou-a para longe. Viu de relance a própria imagem no espelho. Parou um pouco para prestar atenção. Era uma mocinha com o rosto magro, cabelos escuros escorridos colocados atrás da orelha, sobrancelhas quase unidas na base do nariz, logo acima dos óculos. Seus olhos também eram escuros e profundos. Dois poços escuros de tristeza e rancor. Não gostou do que viu. Naquele momento teve certeza de que seria capaz de matar.