quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A Luxúria

(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)

Luxúria: palavra que provém do latim luxuria. Pecado capital definido comumente como o “desejo passional e egoísta por todo o prazer corporal e material”. É também identificado como apego aos prazeres carnais, corrupção de costumes e sexualidade extrema. Gera obscurecimento da mente, egoísmo, apego ao mundo, aversão a Deus, inconstância, irreflexão, precipitação, desespero em relação ao futuro. De modo geral, foi um tema sobre o qual se debruçaram as mentes mais brilhantes da cristandade, principalmente durante a Idade Média, período em que os conceitos a respeito do significado de pecado e dos limites que deveriam ser mantidos na relação com o mundo sobrenatural consolidaram-se, constituindo o conjunto de imagens que popularam o imaginário coletivo, forjaram o senso comum e estabeleceram os parâmetros morais da sociedade ocidental sobre os quais se fundamentaram a justiça e as relações sociais. Esse ideário caracterizou-se por um forte carácter misógino. Um exemplo disso é o documento Malleus Maleficarum, escrito e publicado em 1486 por dois monges dominicanos alemães, Heinrich Kramer e James Sprenger, que consideraram a luxúria um elemento intimamente ligado às práticas heréticas. Eles estabeleceram paradigmas que foram adotados pelas autoridades da inquisição até o século XVII nos julgamentos de bruxaria que culminaram na morte de milhares de pessoas, na grande maioria mulheres, em toda a Europa Ocidental. Segundo eles, “toda bruxaria provém da luxuria carnal, a qual na mulher é insaciável. Uma coisa nunca é satisfeita: a boca do útero”. Nesse texto, distinguem-se três vícios, de cunho sexual, que exercem domínio especial sobre as mulheres perversas: a infidelidade, a ambição e a luxúria. Algumas passagens salientam que o intelecto feminino é desfavorecido e que, por isso, a mulher é incapaz de absorver e elaborar mentalmente conceitos complexos; a impossibilidade de recorrer ao pensamento e à razão para interpretar e corrigir os próprios impulsos provocaria uma hipertrofia dos instintos, tornando as mulheres mais inclines à utilização de práticas malignas e imorais para satisfazerem seus desejos. Explica-se que isso ocorre porque a mulher “é mais carnal que o homem, sendo justificável, a seus olhos, a maioria das abominações carnais. E deve ser notado que existiu um defeito na formação da primeira mulher, uma vez que ela foi formada de uma costela curva, ou seja, a costela do peito, à qual é arqueada como se fosse em direção contrária a um homem. Quando uma mulher chora, ela obra para iludir o homem. [...] Em consequência ela mostra que duvida e tem pouca fé na palavra de Deus. E tudo isso é indicado pela etimologia da palavra: pois femina procede de fe e minus, uma vez que ela é sempre fraca para manter e preservar a fé. Portanto, uma mulher é por sua natureza mais rápida em hesitar em sua fé, e consequentemente mais rápida em abjurar a fé, que é a causa da bruxaria”. Ao longo dos séculos, os conceitos ligados à sexualidade foram sendo elaborados com base em incompreensões profundas a respeito da manifestação da essência humana em dois gêneros diferentes e em todas as nuances que envolvem essa classificação. Por mais absurdas que possam parecer algumas passagens citadas acima no que se refere às características depreciativas atribuídas ao universo feminino, nos dias atuais ainda há muita confusão a respeito do que seja uma leitura espiritual da sexualidade sob uma ótica feminina. Desse modo, tudo o que foi estabelecido a respeito desse vício até o momento é incompleto. Sinônimo: obsexualismo: (obsessão + sexual + -ismo) designativo de um distúrbio de ordem sexual caracterizado bipolarmente por um estado de lascívia, sensualidade, libidinagem, desejo ardente e por um bloqueio dos próprios impulsos sexuais numa tentativa muitas vezes frustrada de suprimi-los através da racionalidade; esse bipolarismo cria uma tendência à culpa e à subversão da realidade na busca por redenção. Nota etimológica: obsessão provém do latim obsessione, cujo significado primitivo era assédio, cerco, bloqueio que evoluiu para: ação ou efeito de importunar com persistência e assiduidade ou, ainda, estado de pessoa que se crê atormentada, perseguida pelo espírito maligno, e, em sentido figurado, ideia fixa, preocupação constante, mania. Matéria, carne, desejo, cegueira, sexo, céu, inferno, céu dentro do inferno. Antídoto ou virtude: pureza, castidade.

...

As amigas conversavam animadamente sentadas ao redor da mesinha de centro sobre o tapete felpudo da pequena sala de estar do apartamento de Mariana. Daquela vez as cinco se reuniram para comemorar o dia 8 de março de um modo diferente. Estavam cansadas de fazer programas nos quais pareciam ter a obrigação de mostrar quanta liberdade tinham para imitar os homens, fingindo divertir-se com piadinhas machistas ao contrário, com representações patéticas de superioridade nas quais procuravam exsudar todo o ressentimento acumulado durante o ano através de um festival de insultos que não poderiam ser ditos diretamente aos seus chefes, colegas, pais, irmãos, maridos, namorados, porteiros, professores, vizinhos e a todos aqueles que as atormentavam cotidianamente com perfeita naturalidade e que não iriam mudar em nem uma vírgula o seu modo de ser depois de mais um Dia Internacional da Mulher. Alguns dias antes, Mariana havia lido em uma revista um artigo interessante, no qual a colunista dizia que o feminismo era uma luta fadada ao insucesso porque, na verdade, era uma reivindicação a uma participação igualitária em um modelo de sociedade concebido sem uma participação efetiva da mulher. Isso porque ela sempre esteve ocupada demais em remendar os estragos provocados pelos homens durante suas maravilhosas conquistas através das quais direcionaram a nossa espécie para a autodestruição. Qualquer conquista obtida através do feminismo, apesar de ser melhor do que nada, é apenas mais um passo dado na direção de uma adaptação forçada das mulheres a essa lógica, esterilizando elementos que seriam fundamentais para se chegar a um equilíbrio. Dizia que era preciso atentar para o fato de que não estava sendo levada a sério a urgência de se fazer um pouco de silêncio para deixar vir à tona tantas certezas que as mulheres reprimem há tanto tempo como se fosse vergonhoso e indigno cultuar a vida nas suas formas mais profundas. A vida. A terra. A vida que ela é capaz de carregar dentro do seu corpo como a terra faz com todos nós. O artigo terminava com uma afirmação que deixou Mariana intrigada: “o mundo precisa de mais bruxaria e menos histeria”. Ela se considerava uma pessoa razoavelmente culta, havia cursado uma boa faculdade, concluiu diligentemente o curso de mestrado, viveu algum tempo no exterior e estava pensando em começar um doutorado. Atualmente trabalhava em um órgão público. A sua área de atuação não tinha nada a ver com história, sociologia ou filosofia, ela era só uma pessoa que se interessava por aquilo que estava acontecendo com as pessoas de um modo geral. Não era do tipo que buscava aprofundar-se nos problemas éticos e humanísticos mais em voga através de obras especializadas, preferia ler romances e artigos que usavam uma linguagem direta e compreensível ao público comum. Não gostava de livros de autoajuda, mas, não raras vezes, sentiu que seria bom se pudesse contar com um pouco mais de ajuda para resolver suas crises pessoais. Tinha algumas boas amigas com as quais podia conversar de vez em quando, o que já era algo extraordinário, pois conhecia pessoas que só tinham colegas que se viessem a conhecer alguma sua fraqueza podiam puxar o tapete debaixo dos seus pés a qualquer momento. Não conseguia deixar de concordar quando alguém comentava que o mundo estava ficando cada vez mais louco. “Isso que estão fazendo é uma loucura, você não acha?” e ela balançava a cabeça anuindo “é verdade, é uma loucura”, “se continuar desse jeito, aonde a gente vai parar?”, e ela, sem conseguir formular nenhuma resposta plausível e tentando espantar uma série de imagens apocalípticas que passavam instantaneamente pela sua cabeça, repetia “aonde a gente parar, né?”. Intimamente sabia que todo mundo sabia que havia alguma coisa bem errada no ar. Sentia sempre aquela sensação familiar que leva as pessoas a adotarem uma frase de efeito para enfrentarem as situações absurdas do dia-a-dia, como um modo para dizerem a si mesmas que estão cientes do problema, não podem fazer nada e seguem adiante assim mesmo. Tinha sempre uma na manga para qualquer eventualidade. Adorava a antimanicomial “de perto ninguém é normal”, pois ajudava a aliviar a tensão quando tinha que lidar com personagens realmente difíceis. Gostava também da frase irônica de Joel Santana “se cobrir vira circo, se cercar vira hospício”, quando se tratava de algum acontecimento incompreensível de forte caráter nacional. Recitava com um certo orgulho “na maioria das vezes, um pepino é só um pepino”, de Freud, quando tinha urgência em desmistificar as coisas, e partia logo para o ceticismo extremo de Nietzsche com “a crueldade é um dos prazeres mais antigos da espécie humana”, quando a coisa parecia realmente sem esperança. No fundo, eram todas frases conformistas e ela sabia disso. Porém, aquela frase sobre histeria e bruxaria instigou a sua curiosidade de um modo diferente. Achou uma ideia interessante, mas não sabia exatamente o que uma coisa tinha a ver com a outra. Pesquisou na internet e verificou a que histeria há algum tempo havia sido desmistificada pela psiquiatria e perdera a conotação que tivera desde a antiguidade, quando foi considerada um distúrbio ligado a um mau funcionamento do órgão sexual feminino – como indica o próprio nome que provém de uma palavra grega que significa útero – e, após o surgimento da psicanálise, vinha sendo tratada como uma neurose causada por lembranças reprimidas de grande intensidade emocional. Atualmente, o termo histeria era considerado um conceito genérico, tendo sido ramificado em conceitos clínicos mais específicos. Durante a Idade Média, a manifestação dessa doença, que atingia principalmente mulheres e envolvia, além da instabilidade emocional, sintomas físicos tais como cegueira, surdez e paralisia, foi comumente confundida com feitiçaria e tratada, ou extirpada, com torturas, exorcismos ou assassinatos. “Muito bem”, pensou, “e a bruxaria?” Também. Bingo! O que era a bruxaria então? Sentiu uma sensação estranha ao se fazer esta pergunta. Já tinha visto muita coisa sobre isso, filmes, livros, cresceu ouvindo contos de fadas nos quais sempre havia uma bruxa malvada e nariguda. Uma vez havia se fantasiado de bruxinha sexy para ir a uma festa de Helloween, e foi muito divertido. Enfim, era uma imagem banalizada, vazia. Na melhor das hipóteses, o misticismo feminino era uma alusão a um mundo sobrenatural transformado em uma metáfora da realidade, uma alegoria de coisas irracionais, intangíveis e incontroláveis que deviam ficar à margem de uma vida sã. Seria a ridicularização da sua imagem uma outra forma de fogueira na qual o seu significado mais profundo transforma-se em fumaça e cinzas? Respiramos no ar essa fumaça e caminhamos tranquilamente sobre suas cinzas? Sentimos atração ou repulsa pela ideia de algo que não existe? Por que é uma ideia que persiste no nosso imaginário? Surge da mesma forma em que surge a ideia que temos de Deus? É uma ideia que se contrapõe à ideia de Deus? Pensando sobre essas coisas, Mariana concentrou-se na imagem que fazia de Deus. Na sua mente, se Deus fosse alguém, ele seria um homem. Nunca vira Deus como uma mulher. Ela era uma mulher e via Deus como um homem. O que isso queria dizer? Que ela era menos semelhante a Deus do que os homens? No fundo, isso representava ter consciência da própria inferioridade? Se algum dia a sua razão pudesse suprimir completamente a sua religiosidade, essa sensação de inferioridade desapareceria ou se reforçaria ainda mais? O que lhe restaria? Não sabia por que estava indo tão longe com aquela história. Talvez porque estivesse tendo muito tempo para pensar ultimamente. Um certo vazio invadira a sua vida de um modo que ela não imaginara ser possível acontecer com alguém nas suas condições, quando tudo parecia estar encaixado no devido lugar. Não era um vazio no sentido de não saber o que fazer. Tinha metas a alcançar, uma carreira pela frente, planos de continuar os estudos, lugares que gostaria de conhecer ao redor do mundo. Morava bem, comia bem, tinha um bom carro, um bom salário. Dormia bem. Relacionava-se bem com seus pais e irmãos, embora os visse esporadicamente, quando tinha alguns dias de folga e podia viajar para o interior. Era vista como um exemplo para as suas sobrinhas, a tia independente e inteligente que conseguiu tudo o que queria na vida. “E ainda é tão nova”, diziam sempre ao se referirem a ela. Mas sentia um grande vazio dentro de si. Sabia que nesses momentos as pessoas têm que ficar muito atentas para não caírem em armadilhas. “Está cheio de espertalhões por aí querendo preencher o vazio de pessoas vulneráveis que se deixam manipular por um pouco de consolo. Não sou idiota. A verdade é que parece que uma parte de mim está dormindo, como se estivesse anestesiada, e tenho a impressão de conseguir conviver com isso até o fim da minha vida, mas não sei se quero continuar desse jeito.” Há muito tempo Mariana não sentia mais atração por ninguém. Não havia passado por nenhum episódio traumático, ou qualquer coisa do tipo. Seus hormônios estavam sendo regularmente produzidos pelo seu corpo, conforme o resultado dos últimos exames que havia feito. Não havia nada de errado com ela. Começou a pensar que talvez fosse lésbica. Tentou sair com uma mulher que conheceu nas aulas de aeróbica que vinha dando algumas investidas na sua direção. Foi frustrante para as duas, pois não rolou nada. Mariana acabou se abrindo no final e as duas acabaram trocando confidências, como boas amigas. Passou a encarar a coisa como uma situação passageira, que mudaria sozinha com um pouco de paciência. Mas não mudava. Achou que talvez a abstinência de sexo fosse uma característica da sua personalidade, como poderia ser o caso de tantas religiosas que fazem voto de castidade e vivem serenamente. Leu algumas histórias de santas e ficou surpresa ao saber quanto fervor elas sentiam dentro de si. Algumas narravam detalhadamente momentos de arrebatamento espiritual durante os quais se sentiam completamente possuídas pela presença divina. Leu atentamente as palavras de Santa Teresa D’Ávila que inspiraram o célebre escultor Bernini a representá-la na pedra como se ela estivesse flutuando de êxtase espiritual após ter sido transpassada pela lança ardente de um anjo. Pensou que talvez esse tipo de arrebatamento fosse reservado às santas e que as freiras mais comuns fossem apenas frias, como ela. Tudo era muito confuso na sua cabeça. Estava tudo bem e também tudo mal. Sentia-se normal e anormal ao mesmo tempo. Ouviu falar de sublimação, processo no qual algumas energias instintivas primitivas, entre elas a sexualidade, são canalizadas e transformadas em coisas sublimes tais como obras de arte e feitos hercúleos. Chegou à conclusão de que este também não era o seu caso, pois não havia nada de extraordinária naquilo que fazia. Não estava sublimando nada ultimamente. Nem sabia direito o que aquilo significava. Quando ouviu falar de bruxaria, de forças interiores que haviam sido esquecidas em um passado distante, de fluxos cósmicos em constante movimento, de energias da terra, de mistérios da vida e da sexualidade algo pareceu reagir dentro dela. Pensou que talvez essas coisas pudessem ajudar. Comprou um livro que ensinava algumas práticas que poderiam ser feitas por pessoas leigas para iniciar-se na magia – magia branca, obviamente. Foi então que teve a ideia de preparar alguma coisa para fazer com suas amigas. Ligou para elas marcando o encontro para a noite do dia 8 de março, data perfeita para começar a incentivar a mulher que se escondia dentro dela a sair para a vida. Estavam todas presentes naquela noite, sentadas ao redor da mesinha decorada com objetos rituais recém-adquiridos e com os pés descalços que alisavam o tapete felpudo. A luz estava apagada e algumas velas acesas perfumavam o ambiente. Mariana havia preparado um breve ritual para que entrassem no clima e pudessem passar para a segunda parte, quando cada uma teria que responder a algumas perguntas íntimas. Já havia passado mais de uma hora e ainda não haviam começado, pois as amigas não paravam de falar. A anfitriã não queria ser indelicada e pedir silêncio, pois sabia que elas não se viam há algum tempo e conversar um pouco também fazia parte do processo, mas já estava ficando impaciente. De repente, para sua surpresa, a Selminha tirou de uma sacola uma garrafa de bebida que continha um líquido verde bem vivo e uma caixinha com cubinhos de açúcar. Todas aplaudiram muito animadas, menos a Mariana. “Isso aqui é uma maravilha, Absinto do bom, também conhecido como Fada Verde. Só preciso de água gelada e de umas taças. Vou lá pegar, tá?” E foi levantando ao som de “Viva a Selminha, Selminha boa companheira!”. Mariana foi atrás da amiga que já estava na cozinha abrindo a geladeira. Sussurrou baixinho para que as outras não pudessem ouvir: 
“O que você está fazendo? Assim, vai estragar tudo o que programei para fazermos hoje. Eu disse que era importante para mim”. 
“Relaxe, querida. Por que ficar tão tensa? Vai dar tudo certo, você vai ver. É só você ficar boazinha e relaxar. Onde estão as taças?”
Mariana pegou as taças e levou-as até a mesinha. As outras perceberam que ela estava contrariada e trocaram olhares cúmplices. O primeiro drink preparado foi para ela. Era gostoso, refrescante, forte. Ela foi bebericando devagar enquanto observava a Selminha preparar os outros drinks. Aquilo tinha um efeito hipnótico. Ela colocava um cubo de açúcar sobre um garfo deitado nas bordas da taça, derramava sobre ele uma quantidade abundante de líquido verde, depois, aproximava a chama de uma vela e o cubo se incendiava. O açúcar ia derretendo e mudando levemente de cor enquanto espalhava vapores adocidados e aromatizados pela sala. Não era o que havia imaginado para aquela noite, mas também não era tão ruim assim. Afinal, encher a cara também era um ritual. Fizeram outra rodada, e mais outra. Mariana ouviu alguém dizer que queria dançar. Chamaram um táxi. No trajeto do apartamento até a portaria, que parecia bem mais longo do que de costume, alguém perdeu o equilíbrio e se segurou em quem estava por perto. Três corpos cambalearam e caíram no chão fazendo um barulho de saltos riscando o piso e ossos batendo contra uma superfície rígida. Bolsinhas plainaram no ar e batons projetaram-se como jatos supersônicos contra a parede. As duas que ainda permaneciam em pé também despencaram no chão, pois não conseguiam rir e manter o equilíbrio ao mesmo tempo. Uma porta se abriu no corredor e alguém começou a falar alto e a gesticular. Mariana gatinhava para alcançar algo sólido onde pudesse se apoiar para colocar-se em pé, mas era uma tarefa difícil. Viu algumas mãos que balançavam o dedo médio levantado na direção de uma figura de pijama que logo em seguida bateu a porta com força. Apoiaram-se umas nas outras e conseguiram ficar de pé. Estavam todas inteiras. O porteiro apareceu perguntando se precisavam de ajuda. “Dona Mariana, a senhora sabe que já é tarde, os moradores reclamam...” ela tentava manter uma certa compostura enquanto lutava para conter as amigas que tentavam formar a figura de uma divindade indiana com vários braços levantados mostrando o dedo médio. “O táxi da senhora já chegou”, disse ele, por fim, mantendo uma certa distância de segurança. Quando finalmente a trupe ultrapassou a porta do prédio e ela se fechou nas suas costas, ele fez um respiro profundo de alívio. O taxista não ficou muito feliz com a ideia de carregar cinco bêbadas de uma vez no seu táxi, mas achou melhor não discutir. Elas que se amassassem no banco de trás. Pegou um pedaço de papel com o endereço e afundou o pé no acelerador para se livrar logo delas. Olhou pelo retrovisor e viu que ao serem jogadas de um lado para o outro como sacos de batata se divertiam mais ainda. Desovou-as na porta da discoteca, que estava muito cheia por ser um dia de semana. “Deve ser por causa dessa porra de Dia da Mulher; elas ficam nesse estado e depois ainda reclamam quando acontece alguma coisa”, pensou consigo mesmo; olhou-as com um ar de reprovação enquanto uma delas tentava pegar a quantia certa de dinheiro na bolsinha. “Fique com o resto. Depois nós vamos chamar o senhor de volta, mais tarde, tá bom?” Ele anuiu, pegou o dinheiro e foi embora. 
Dentro da discoteca, o som e as luzes transportaram-nas diretamente para a pista de dança lotada. Depois de algum tempo dançando desvairadamente, aproximaram-se delas alguns rapazes, jovens e bonitos. Mariana reparou que Laura parecia conhecê-los. “Nossa, que coincidência!” exclamou e apresentou-lhe um deles dizendo que era um colega do escritório. Seu nome era Renan. Tinha um sorriso realmente encantador. Não saía do lado de Mariana e não perdia nenhuma oportunidade de esbarrar no seu corpo e, algumas músicas depois já segurava a sua cintura com mãos firmes e fortes. Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa. A essa altura ela já estava fervendo por dentro. “Uau, esse cara é demais”, pensou. Olhou ao redor e as amigas haviam desaparecido. Ele sorria esperando uma resposta. “Que se dane, sou capaz de ir atrás dele até o fim do mundo”. Saiu da pista segurando a mão dele. Em um ponto mais escuro, ao reparo de uma coluna, ele parou e prensou o seu corpo contra o dela. Deu-lhe um beijo no pescoço. Foi dando beijos demorados na sua pele suada até alcançar a sua boca. “Perdi minhas amigas” disse-lhe por fim Mariana, “você pode me levar para casa?” E assim fizeram. Chegaram no apartamento dela e completaram o ritual previsto para aquela noite. De um modo ou de outro, era aquilo que ela queria. Suas amigas entenderam direitinho que por trás de toda aquela história que ela havia inventado, era aquilo que estava querendo encontrar. “Meu Deus, como é isso bom! Como eu pude ficar tanto tempo sem sexo?” pensou ela quando terminaram. Ele era o máximo, conhecia posições incríveis, sabia excitá-la no ponto justo e depois levá-la ao delírio com seu instrumento masculino perfeitamente torneado que tinha o tamanho certo, a temperatura certa, o ritmo certo. Durante todo o tempo em que passaram juntos deve ter dito umas quinhentas vezes que ele era um tesão de homem. Ela só achou meio estranho que logo depois da gozada final ele não tenha deitado novamente ao seu lado. Recuperou o fôlego sentado na beirada da cama. Tirou a camisinha e ela reparou que estava seca. Olhou espantada para ele que a assegurou de que estava tudo bem, que havia sido ótimo para ele também. Sorriu-lhe gentilmente e começou a vestir-se. Mariana também se sentou apoiando as costas na cabeceira da cama e cobrindo os peitos com um pedaço do lençol; a sua cabeça girava, estava meio tonta, mas assistiu a toda cena. Em dois minutos ele estava completamente vestido e calçava os sapatos. “Você já vai embora?” disse ela sentindo que o vazio que costumava dilacerar a sua alma sem nenhuma piedade já começava a se apossar de tudo lá dentro. Ele procurou alguma coisa no bolso da calça. “Não se preocupe, suas amigas já pensaram em tudo. Quando precisar, pode me chamar nesse número” e entregou-lhe um cartão de visita. Caminhou na direção da porta e disse de um modo muito profissional:
“Nem precisa se levantar, eu sei onde é a saída. Foi um prazer conhecer você.”