terça-feira, 25 de abril de 2017

A Avareza



    Avareza: palavra que provém do latim avaritia. Pecado capital definido comumente como o “amor desregrado pelo dinheiro e bens materiais”. Segundo algumas tradições, as desordens provocadas pelos excessos relacionados a esse pecado não se restringem ao aspecto material, sendo que as suas manifestações em âmbito espiritual, material e mental são ainda mais sutis e perniciosas. Gera mentira, traição, perjúrio, fraude, inquietude, violência, ausência de empatia, mesquinhez, ansiedade. Há evidências de que este vício tende a se intensificar com a idade. Sinônimo: supermaciçose: em acepção vulgar, o mesmo que ganância, cobiça, sovinice (supermaciço - em astrofísica, adjetivo que qualifica um buraco negro com superconcentração de massa + sufixo -ose). Como termo próprio da linguagem médica, refere-se a uma perturbação psíquica caracterizada pelo desenvolvimento de comportamentos paranoicos cuja evolução manifesta-se em forma de compulsão por adquirir e conservar em seu poder ao longo da vida a maior quantidade possível de matéria ou valor equivalente, o que dá origem a um desequilibrado campo sócio-gravitacional que provoca uma dilatação anormal da sua capacidade de atrair e agregar mais matéria. Em jargão econômico, é designativo de transações financeiras vultosas que incrementam o patrimônio de grandes corporações internacionais, ampliando ainda mais a sua influência em âmbito geopolítico. Acumulação excessiva, pavor persecutório, desejo obsessivo de controle, poder, isolamento, psicopatia, pobreza. Antídoto ou virtude: generosidade, contentamento.

...

    A professora Leila já havia feito a chamada e estava escrevendo na lousa o tema que seria discutido na aula de religião e a classe fazia um barulho tremendo. “Que gentinha mal-educada” pensou. “Silêncio! Prestem atenção ao tema de hoje e escrevam no caderno!” e leu em voz alta o que havia escrito na lousa: “Ética e Cidadania: o Bom Cidadão.” Sentiu uma pontada aguda nas têmporas e sabia que aquele era um sinal de que a sua habitual dor de cabeça estava chegando para ficar. Dar aula daquela matéria em escolas públicas não era uma tarefa fácil. Tinha uma licenciatura em química, mas naquela região só conseguiu fazer algumas substituições que não eram suficientes para complementar o orçamento da família depois que ela e o marido resolveram fazer um financiamento para comprar um apartamento. Quando assinou os papéis do contrato percebeu que não havia adquirido uma casa: a casa era do banco e a dívida era sua. Optaram por aquela solução porque parecia ser a mais razoável. “Pagar aluguel é jogar dinheiro fora” dizia seu marido que já andava contrariado com o fato de não conseguir fazer nada com o dinheiro do seu duro trabalho além de apenas sobreviver. Uma vez ele se lamentou com uma gravidade no olhar que a deixou preocupada: “A gente precisa dar um sentido a tudo isso. Trabalhar por trabalhar sem conseguir comprar nada é muito desestimulante. Às vezes dá vontade de desistir de tudo.” Ela pensou em argumentar dizendo que não estavam apenas sobrevivendo, estavam tendo a oportunidade de viver uma vida juntos, tinham o privilégio de compartilhar amor, cumplicidade, amizade, intimidade e que isso era suficiente para ela seguir adiante sem hesitar, pois são coisas que não têm preço. Mas percebeu que ele a olharia como se estivesse assistindo a mais uma ridícula propaganda de cartão de crédito que enfatiza quanto as relações humanas são belas quando se tem dinheiro à disposição. Era ele quem arcava com grande parte das despesas do casal e estava descontente. Estava prestes a declarar a falência do casamento que vinham mantendo modestamente há três anos. Ele precisava de algo mais consistente. Alguma coisa que pudesse tocar com as próprias mãos, à qual pudesse atribuir um valor real. Não era pedir demais, era simplesmente encarar a realidade. Quem não tem ambição acaba ficando de mãos vazias e ninguém leva a sério. Vira piada. Todo mundo sabe disso. Nem é preciso participar de quinhentos mil cursos motivacionais na empresa em que trabalha para entender um conceito tão simples. O seu marido só estava querendo dizer que nem tudo em um casamento tinha que ser tratado com sentimentalismo ou pieguice. Tinham apenas que ser práticos. Tinham que comprar um apartamento. E assim foi. Quando ela ficou sabendo que a professora de religião daquela escola iria embora, acendeu-se uma luzinha na sua cabeça – que não tinha nada a ver com ter uma ideia genial ou algum tipo de iluminação espiritual. Informou-se sobre o que era necessário para ser admitida como uma professora de religião e descobriu que bastava ter uma licenciatura de qualquer coisa. Não havia nenhuma outra exigência. Não teria que fazer nenhum curso de formação. Nada que fosse complicar a sua vida. Foi sincera com a diretora dizendo que não era uma pessoa religiosa, era uma católica não praticante. A diretora disse que era até melhor que fosse assim, deu-lhe uma cópia das diretrizes que regulamentavam o ensino da matéria, disse que ela deveria ler as informações com atenção, mas que não precisava ficar preocupada, pois na prática tudo aquilo era bem mais simples do que parecia. Enfatizou que o importante era procurar seguir sempre uma linha laica, como previa a lei, e tranquilizou-a dizendo que havia muito material sobre o assunto disponível na internet. Ela deveria usar o bom senso, ser o mais imparcial possível ao abordar cada religião, evitando ser tendenciosa e discriminatória, pois isso poderia criar problemas com os pais dos alunos. “A gente precisa prestar atenção para não ofender ninguém porque já existem casos em que as escolas foram processadas por falarem mal da religião alheia. Tome cuidado com isso; o resto vai ser fácil.” Leila assumiu as aulas sem ter a menor ideia de como programá-las. Teria que ser rápida, pois podia contar apenas com o final de semana para organizar tudo. Recolheu o material que encontrou na internet, e viu que de fato não era tão abundante assim, pois a maioria dos programas que achou eram no mínimo tendenciosos. Se fosse considerar criteriosamente as diretrizes, nenhum deles serviria para ser aplicado em sala de aula. Sentiu-se ligeiramente apavorada. Pescou aqui e ali algumas ideias neutras - que quase não se encaixavam no tema de tão neutras que eram. Transitou entre textos de autoajuda e psicologia de salão. Recolheu algumas frases de personagens famosos. Leu alguns resumos de teses acadêmicas que conseguiam reduzir as grandes questões da humanidade a parágrafos telegráficos. Fez uma lista na qual procurou incluir do modo mais abrangente possível nomes e definições objetivas a respeito das religiões mais importantes praticadas no país. A lista acabou ficando muito extensa. “Puxa vida, quanta criatividade tem essa gente!” Tentou elaborar algumas perguntas que poderiam fazer com que os alunos participassem de uma discussão. Duvidou que aquele compêndio feito às pressas seria capaz de suscitar o interesse dos alunos. Decidiu que não deveria esquentar muito a cabeça, pois era óbvio que se os responsáveis realmente pretendessem alguma coisa daquelas aulas de religião, não teriam deixado que uma professora de química sem nenhuma experiência ficasse encarregada de elaborar o programa. “Se eu pudesse ensinar química seria tudo muito mais fácil, mas por que as coisas devem ser fáceis na nossa vida, não é mesmo?” Riu de si mesma porque estava prestes a responder à pergunta usando uma das frases prontas que havia anotado durante a sua inusitada incursão humanística pela rede. “Isso não vai servir para nada, ou melhor, só vai servir para eu pagar a prestação do próximo mês.” Na sala de aula, Leila viu que os alunos já haviam copiado o tema do dia escrito na lousa e olhavam curiosos para ela. Já se conheciam porque ela havia substituído recentemente a professora de ciências deles que se ausentou por uns dois meses para fazer um tratamento de saúde. “Agora, prestem atenção nas perguntas que vou fazer para vocês. Quem responder certo vai ganhar um ponto positivo. Alguém sabe dizer o que é ser um bom cidadão?”
    Uma menina levantou o braço indicando que queria falar. Em vez de responder, perguntou:
    “Professora, esta aula não é de religião? A gente não vai falar de Deus e do diabo? Eu sei o que é o diabo.”
   “Eu quero saber se alguém sabe responder à pergunta que eu fiz” retrucou Leila em tom de reprovação.
    “Mas, professora, – insistiu a aluna – a gente não ia falar de religião?”
    “Se você não sabe responder, fique quieta e não atrapalhe”.
    A menina encolheu-se na cadeira com uma expressão contrariada. 
    Três alunos levantaram a mão. Leila pensou que a coisa podia dar certo. Estavam participando. A maior parte dos alunos prestava atenção. Queriam saber onde aquilo ia dar. “Vamos lá.” Apontou para um menino que sentava no fundão e parecia ser maior que os outros. Ele era do tipo que não passa desapercebido pelos professores, estigmatizado na escola como aluno problemático, provinha de uma condição familiar ainda mais precária do que a maioria. Ela disse “pode responder” pensando que seria uma boa estratégia envolver na discussão também os alunos menos aplicados que formam o grupo dos apáticos ou dos bagunceiros. E ele respondeu:
    “Bom cidadão é uma cidade bem grande cheia de mulher gostosona.” A sala caiu na gargalhada.
    “Seu idiota, desgraçado, eu te mato!” Leila pensou, mas não falou. Bateu na mesa e berrou pedindo silêncio. Tinha que punir o aluno engraçadinho para não perder de vez o respeito da turma. Enquanto pensava no que fazer, a mesma menina de antes levantou o braço novamente e ficou de pé. Não estava rindo. Ela nem esperou receber autorização e começou logo a falar bem alto, quase gritando para que sua voz aguda conseguisse ser escutada em meio àquele pandemônio. Seus olhos denotavam uma certa histeria.
    “Professora, tá vendo? É isso que acontece quando a pessoa não invoca o poder do Nosso Senhor para afastar o diabo. Ele toma conta!!! Eu quis avisar e a senhora não deixou. Olha só o que ele fez! Agora vai ter que expulsar o diabo daqui!
    Leila pediu silêncio mais uma vez, concentrou-se para tirar de dentro de si a postura mais autoritária possível, que costumava ser bastante eficaz em situações daquele tipo, apontou o dedo para seus alunos enquanto falava com uma expressão ameaçadora:
“Você aí, sente-se imediatamente e pare de falar besteira. Não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre o diabo. Estamos na escola, não em um manicômio. Sabe o que é um manicômio? É onde internam gente louca. Tome cuidado com o que você fala. Você aí no fundo, qual o seu nome? Vai receber um ponto negativo. Se quiser fazer gracinha, fique em casa torrando a paciência da sua mãe que pelo jeito não soube dar educação para você. Não venha para escola atrapalhar quem quer estudar e ser alguém na vida. Você sabe o que acaba acontecendo com quem não estuda, não sabe? Vira burro de carga ou vai pedir esmola, como muita gente por aí que você conhece bem.
A encenação pareceu surtir o efeito desejado. Silêncio. Dois alunos humilhados e uma professora redimida. 
    “Vamos lá, pessoal. Quem responder direito à pergunta agora vai ganhar dois pontos positivos: o que é ser um bom cidadão?”

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