terça-feira, 4 de abril de 2017

A Inveja

(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)


Inveja: palavra que provém do latim invidia. Pecado capital definido comumente como “Tristeza com o bem de outrem, porque esse bem é entendido como uma diminuição da sua própria excelência pessoal”. É um vício derivado da soberba. Não é um defeito genético, mas pode se perpetuar por uma má formação da consciência moral no ambiente familiar. Consiste também no regozijo pela desgraça que sucede ao próximo, como se a felicidade alheia fosse um fator de perturbação da própria felicidade. Gera exultação pela adversidade alheia, calúnia, maledicência, delação, ódio, aflição pela prosperidade, murmuração, mau-olhado. Na forma de ciúmes, a inveja é proibida nos Dez Mandamentos da Bíblia. Sinônimo: sadocompetitividade: (sadismo + competitividade) designativo de uma das qualidades que constituem a base das relações interpessoais nas sociedades humanas, desde os seus primórdios. Estado de insatisfação íntima permanente em relação a múltiplos aspectos da própria condição de indivíduo que consagrou a busca ostensiva por reconhecimento externo, muitas vezes através da aquisição de bens materiais, como método de estabelecimento da própria supremacia e foi um fator fundamental para a evolução dos intercâmbios sociais e econômicos nas várias comunidades até a obtenção do sofisticado sistema financeiro global adotado atualmente. Perversão largamente estudada e explorada pelos mecanismos de manipulação de massa que geralmente se manifesta por meio de agressão psicológica, que, diferentemente da agressão física, na grande maioria dos casos não é considerada grave e passível de punição. Constitui um comportamento socialmente aceito que contribui para o aperfeiçoamento de métodos de hierarquização que estabelecem a posição de um indivíduo dentro de uma coletividade. Obtusidade, inconsistência, insatisfação, incapacidade, insalubridade, infelicidade. Antídoto ou virtude: compaixão, empatia.

                                                                          ...

      Regiane sentia vergonha do que havia feito, mas não muita. Claro, se alguém descobrisse a verdade, a vergonha seria maior. Mas, até o momento, estava tudo sob controle. Ainda bem. Na verdade, nutria um certo senso de culpa porque não era um monstro, era só uma pessoa como todas as outras. Era imperfeita, ou melhor, perfeitamente imperfeita. Mas se perguntava: “existe alguém que não seja assim? Não. Mas, infelizmente, muitas pessoas não tinham humildade suficiente para admitir isso. Pensavam que eram perfeitas, que não tinham defeitos, só caprichos, traços que tornavam a sua personalidade ainda mais fascinante. Alguém tinha que fazer alguma coisa para tirar essas pessoas do pedestal. Fazer isso é prestar um serviço para a comunidade e também para esses que se julgam os reis da cocada, embora tenham que sofrer um pouco com a queda. Mas o que eles pensam? Que vão conseguir viver a vida inteira como se estivessem de férias da realidade? Não é correto todo o mundo estar comendo o pão que o diabo amassou enquanto alguns continuam a agir como se vivessem em uma bolha de felicidade. Claro que isso não está certo. Não adianta ficar assistindo a isso de braços cruzados como se a vida fosse uma novela. Muita gente faz assim. Fica esperando chegar aquele capítulo da novela no qual o personagem intragável se dá mal e acha que justiça foi feita no mundo. Vai dormir satisfeito e no dia seguinte está pronto para ser humilhado de novo. Tem gente que precisa tomar algumas doses de verdade na veia. Tratamento de choque mesmo, senão não acorda. Tudo ao vivo e a cores.” Ela teve que interromper os seus pensamentos porque os primeiros clientes já se acumulavam na frente do guichê. “O próximo” disse ela para o primeiro da fila, e mais um dia de trabalho começou. Regiane trabalhava em uma das poucas agências bancárias de uma simpática cidadezinha do interior, onde todos se conheciam. Ali era um lugar muito bom para quem gostava de levar uma vida pacata. Os jovens costumavam ficar entediados e muitos iam para a cidade vizinha quando queriam se divertir, pois era bem maior e mais desenvolvida. Naquela agência, a rotina permanecia a mesma há muitos anos. Às vezes acontecia alguma mudança na chefia, pois os gerentes tinham que fazer uma espécie de rodízio entre vários pontos de atendimento para evitar o surgimento de alguns vícios que se podem manifestar quando alguém acaba criando raízes em uma posição de comando. Como quem ocupava a função de caixa não tinha este problema, há mais de uma década os clientes encontravam sempre os mesmos rostos por trás do vidro espesso do guichê. Ao lado de Regiane que, como diz o próprio nome, irradiava algo de régio e fazia questão de ocupar sempre a posição central, sentavam suas colegas Lucinha e Clotilde. Tinham suas diferenças, mas, de um modo geral, a convivência entre elas não apresentava nada de anormal, bastava respeitar a hierarquia e a paz estava garantida. Lucinha era a mais tímida das três, e também uma pessoa muito dócil que concordava com tudo e preferia voltar atrás nas suas posições para não fomentar discórdias. Era um alívio para Clotilde ter a Lucinha ali, pois, assim, pelo menos poderia estar certa de que não seria a última na classificação geral. Detestava fazer o papel daquela cuja opinião não vale nada. Bastava olhar para a Lucinha com uma expressão irônica que denotasse um pouco de contrariedade e ela já começava a gaguejar. Era fácil fazer com que ela se sentisse inadequada quando era preciso. Clotilde havia se acostumado tanto com esse recurso que às vezes ficava até ansiosa esperando que Lucinha desse alguma deixa. Assistir às suas tentativas humilhantes de se justificar por algum erro que não havia cometido e afundá-la mais ainda no próprio embaraço apenas com um movimento quase imperceptível no canto da boca era um modo infalível de recarregar a própria autoestima. Em relação à Regiane, já era uma história bem diferente. Era preciso ter sempre cuidado para não dizer nada que pudesse ferir a sua sensibilidade, pois sabia que ela podia ser muito vingativa. E era melhor evitar situações embaraçantes. Já havia tentado abaixar um pouco a sua crista no passado e não havia obtido bons resultados. Aliás, os resultados foram péssimos. “As pessoas precisam saber agir com ponderação senão a convivência se torna impossível. Não dá para viver em pé de guerra o tempo todo. Já tenho que lidar com o stress do trabalho, não posso ficar me desgastando por qualquer bobagem”, repetia Clotilde para si mesma toda vez que recebia uma alfinetada proveniente do guichê central. Sentia-se bem quando conseguia superar a situação mantendo um certo ar de impassibilidade. Sabia que uma reação neutra seguida de um pouco de adulação sempre funcionava com Regiane. A sequência melhor era: hum, hum; pausa; olhar atento e demorado para algo que ela estivesse usando; nossa, que lindo isso! Onde você comprou? Tinha que seguir mais ou menos essa sequência. Às vezes Clotilde até desconfiava que as alfinetadas chegavam justamente com este intuito. “No fundo eu tenho dó da Regiane. Com aquele traste de marido que ela tem, não poderia ser diferente. Quando os vejo juntos, agradeço a Deus por nunca ter me casado. Ainda bem que dali não saiu nenhum filho, certamente seria um monstrinho. Entendo perfeitamente porque ela tem essa obsessão com a própria aparência. Precisa investir um bocado para melhorar um pouco o visual. Deve gastar o salário inteiro em roupas e sapatos e mesmo assim a primeira coisa que se nota nela é a cara de quem chupou muito limão. Fazer o quê? Cada um luta com as armas que tem.” A fila andava em um ritmo normal e Lucinha procurava atender a todos com um sorriso. Muitos clientes a cumprimentavam e perguntavam se estava tudo bem, e isso fazia com que se sentisse em casa. Gostava de desempenhar bem a sua função e ainda se sentia motivada depois de mais de dez anos de profissão, apesar de ter que aguentar todos os dias as duas bruacas que trabalhavam ao seu lado. Tinha consciência de não ser uma santa, e nem pretendia isso de ninguém, mas aquelas duas eram um capricho da natureza. Mas estava conformada. Sabia que não dava para ter tudo na vida e já estava bem satisfeita com o que havia recebido. Ultimamente sentia-se muito feliz. Há algum tempo vinha saindo com um rapaz que realmente havia conquistado seu coração. Ainda não haviam marcado o casamento, mas ela sentia que daquela vez daria certo. Sonhava em ter uma família, era tudo o que ela mais queria. Estava desconfiada de que era algo que poderia acontecer antes do previsto. Tinha a sensação de que seu corpo estava diferente nas últimas semanas. Poderia estar grávida. Seria bom demais se fosse verdade. Sabia que se as bruacas descobrissem, teria um problema. Fariam de tudo para atormentá-la. “São umas hienas esfomeadas que não podem sentir cheiro de carne, senão ficam ainda mais loucas. E se o assunto envolver bebês, não sei o que aquelas recalcadas serão capazes de inventar. Vou ficar bem quietinha.” Lucinha procurava ser discreta o mais possível em relação à sua vida pessoal. Sabia que existiam leis que garantiam o seu direito de separar o trabalho da sua vida privada, mas, na prática, muitas vezes era difícil estabelecer uma linha divisória bem precisa. Após alguns anos tentando contornar a situação, pensou em enquadrar o comportamento das bruacas como Bullying e fazer uma reclamação formal, mas chegou à conclusão de que seria muito difícil fazer isso. Elas não gritavam ou gesticulavam exageradamente, não faziam nada por escrito, era tudo subterrâneo, contido, silencioso, olhares de desprezo, pequenos gestos, tempos prolongados demais para dar respostas, murmúrios incompreensíveis, críticas veladas, caras e bocas. Não dava para acusá-las por serem chatas embora sentisse que o comportamento delas denotava muito mais do que uma simples antipatia. “São agressivas, mas não o bastante para exigir que sejam afastadas de mim. Se quero manter meu emprego, devo continuar a me relacionar com elas todos os dias durante seis horas por dia e tentar não enlouquecer”. Assim, Lucinha resolveu procurar um tratamento. Começou com a naturopatia. Tomou Florais de Bach por algum tempo, fez algumas sessões de Reiki, mas nada disso foi suficiente para eliminar os sintomas de ansiedade que se intensificavam. Não conseguia dormir bem. Procurou atendimento psicológico. Tomou antiansiolíticos. Fez três anos de psicoterapia. Acabou descobrindo uma série de coisas que não imaginava que estivessem guardadas dentro de si e que a tornavam ainda mais vulnerável a comportamentos agressivos. Passou por um processo de fortalecimento, mas, de certo modo, continuou a ser a mesma Lucinha de sempre. Nunca quis se moldar ao padrão de comportamento que as suas colegas estabeleciam no ambiente de trabalho, não valia a pena. Tinha certeza de que se continuasse a fazer o que acreditava ser o melhor que podia, um dia as coisas iriam resolver-se de alguma maneira. Agora, estava vivendo um momento muito bom da sua vida e acreditava que era fruto de todos os esforços que vinha fazendo para enfrentar seus problemas sem ter que deixar de ser a pessoa que acreditava ser realmente.
     No meio da tarde, o gerente foi até Lucinha e pediu discretamente para que ela passasse no seu escritório no final do expediente. Clotilde lançou um olhar indagador a Regiane que arcou ligeiramente os ombros para mostrar que não tinha nem ideia do que estava acontecendo. Mas tinha, e como. As três prolongaram ao máximo a permanência na agência. Lucinha estava esperando que as outras duas fossem embora e elas ficaram enrolando para estarem ali quando ela fosse falar com o gerente. Ele não trabalhava em uma sala completamente isolada. Separando os ambientes havia apenas uma parede baixa de vidro. Houve um momento em que Lucinha olhou rapidamente para o lado e teve a impressão de que Regiane havia desviado o olhar imediatamente, mas continuou sorrindo de modo enigmático, como uma Monalisa que ninguém teria prazer em pintar. Sentiu os sintomas da ansiedade chegarem a galope. Algo lhe dizia que a bruaca número um estava aprontando alguma coisa pesada dessa vez. O gerente cansou de esperar e foi até os guichês do caixa. Dispensou as bisbilhoteiras e chamou Lucinha para conversar.
     Regiane manteve o ar de curiosidade e inocência até sair da agência e ver que Clotilde já estava bem distante. Foi para casa caminhando e não conseguia parar de rir. Detestava o gerente e toda a sua família. Desde a chegada dele na agência ela desaprovara terminantemente a sua arrogância. Dava-se ares de pessoa refinada. Quando se dirigia a ela, fazia questão de demonstrar que a considerava uma caipira sem nenhuma classe. A sua mulher era uma perua do pior tipo; nas poucas vezes que a encontrou pôde perceber claramente que era uma pessoinha detestável. “Que idiotas esses almofadinhas metidos a besta, não têm ideia da pessoa com quem estão lidando.” Foi então que um dia teve uma brilhante ideia enquanto olhava desinteressadamente para o lado e viu a “Lucinha Come Quieta” balançando maliciosamente as madeixas encaracoladas e sedosas de um lado para o outro. ”Desculpe-me,” pensou consigo mesma, “mas uma pessoa que cultiva uma cabeleira vermelha desse tamanho está querendo chamar mais a atenção do que um caminhão de bombeiro em dia de incêndio. Só falta ela gritar: fogo, fogo, venham todos apagar meu fogo!” Olhou para o fundo da sala e reparou que o gerente tinha o costume de pendurar o seu ridículo paletó em um dos ganchos de pendurar casacos colocados em uma parede que ficava de frente para o “aquário” – era assim que Regiane chamava o escritório do gerente. Quase ninguém usava aqueles ganchos, mas o gerente não perdia nenhuma oportunidade para demonstrar quanto era refinado e deixava lá pendurado para todo mundo apreciar o seu antiquado paletó italiano. Não foi difícil imaginar um plano. Como era bom relembrar e saborear cada detalhe. Sem perceber, já havia chegado em casa. Abriu o portão e a porta da frente. Lá dentro não havia ninguém. Seu marido nunca estava em casa. Certamente estaria bebendo no bar. Ela passou pela sala escura e foi direto para o quarto. Abriu o guarda-roupa e pegou uma peruca ruiva cheia de cachos. Colocou a peruca na cabeça e balançou lentamente a cabeça sentindo os movimentos sensuais daqueles fios de fogo. Imaginou que tinha olhos verdes e que seu corpo era carnudo e cheio de curvas. Ficou ainda mais satisfeita quando pensou na cara que a mulher do gerente devia fazer quando via, um dia atrás do outro, o seu querido maridinho chegar em casa com fios de cabelo ruivos pendurados na lapela. Conseguia ver o seu rosto contorcido de horror e essa imagem fez com que ondas de prazer percorressem e fizessem tremer o seu corpo macilento. Imaginou que a insuportável mulher do gerente pudesse escutá-la enquanto sussurrava triunfante: “esses cabelos são meus, sua vaca, são meus lindos cabelos ruivos. O seu marido prefere as ruivas”.




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