quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A Luxúria

(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)

Luxúria: palavra que provém do latim luxuria. Pecado capital definido comumente como o “desejo passional e egoísta por todo o prazer corporal e material”. É também identificado como apego aos prazeres carnais, corrupção de costumes e sexualidade extrema. Gera obscurecimento da mente, egoísmo, apego ao mundo, aversão a Deus, inconstância, irreflexão, precipitação, desespero em relação ao futuro. De modo geral, foi um tema sobre o qual se debruçaram as mentes mais brilhantes da cristandade, principalmente durante a Idade Média, período em que os conceitos a respeito do significado de pecado e dos limites que deveriam ser mantidos na relação com o mundo sobrenatural consolidaram-se, constituindo o conjunto de imagens que popularam o imaginário coletivo, forjaram o senso comum e estabeleceram os parâmetros morais da sociedade ocidental sobre os quais se fundamentaram a justiça e as relações sociais. Esse ideário caracterizou-se por um forte carácter misógino. Um exemplo disso é o documento Malleus Maleficarum, escrito e publicado em 1486 por dois monges dominicanos alemães, Heinrich Kramer e James Sprenger, que consideraram a luxúria um elemento intimamente ligado às práticas heréticas. Eles estabeleceram paradigmas que foram adotados pelas autoridades da inquisição até o século XVII nos julgamentos de bruxaria que culminaram na morte de milhares de pessoas, na grande maioria mulheres, em toda a Europa Ocidental. Segundo eles, “toda bruxaria provém da luxuria carnal, a qual na mulher é insaciável. Uma coisa nunca é satisfeita: a boca do útero”. Nesse texto, distinguem-se três vícios, de cunho sexual, que exercem domínio especial sobre as mulheres perversas: a infidelidade, a ambição e a luxúria. Algumas passagens salientam que o intelecto feminino é desfavorecido e que, por isso, a mulher é incapaz de absorver e elaborar mentalmente conceitos complexos; a impossibilidade de recorrer ao pensamento e à razão para interpretar e corrigir os próprios impulsos provocaria uma hipertrofia dos instintos, tornando as mulheres mais inclines à utilização de práticas malignas e imorais para satisfazerem seus desejos. Explica-se que isso ocorre porque a mulher “é mais carnal que o homem, sendo justificável, a seus olhos, a maioria das abominações carnais. E deve ser notado que existiu um defeito na formação da primeira mulher, uma vez que ela foi formada de uma costela curva, ou seja, a costela do peito, à qual é arqueada como se fosse em direção contrária a um homem. Quando uma mulher chora, ela obra para iludir o homem. [...] Em consequência ela mostra que duvida e tem pouca fé na palavra de Deus. E tudo isso é indicado pela etimologia da palavra: pois femina procede de fe e minus, uma vez que ela é sempre fraca para manter e preservar a fé. Portanto, uma mulher é por sua natureza mais rápida em hesitar em sua fé, e consequentemente mais rápida em abjurar a fé, que é a causa da bruxaria”. Ao longo dos séculos, os conceitos ligados à sexualidade foram sendo elaborados com base em incompreensões profundas a respeito da manifestação da essência humana em dois gêneros diferentes e em todas as nuances que envolvem essa classificação. Por mais absurdas que possam parecer algumas passagens citadas acima no que se refere às características depreciativas atribuídas ao universo feminino, nos dias atuais ainda há muita confusão a respeito do que seja uma leitura espiritual da sexualidade sob uma ótica feminina. Desse modo, tudo o que foi estabelecido a respeito desse vício até o momento é incompleto. Sinônimo: obsexualismo: (obsessão + sexual + -ismo) designativo de um distúrbio de ordem sexual caracterizado bipolarmente por um estado de lascívia, sensualidade, libidinagem, desejo ardente e por um bloqueio dos próprios impulsos sexuais numa tentativa muitas vezes frustrada de suprimi-los através da racionalidade; esse bipolarismo cria uma tendência à culpa e à subversão da realidade na busca por redenção. Nota etimológica: obsessão provém do latim obsessione, cujo significado primitivo era assédio, cerco, bloqueio que evoluiu para: ação ou efeito de importunar com persistência e assiduidade ou, ainda, estado de pessoa que se crê atormentada, perseguida pelo espírito maligno, e, em sentido figurado, ideia fixa, preocupação constante, mania. Matéria, carne, desejo, cegueira, sexo, céu, inferno, céu dentro do inferno. Antídoto ou virtude: pureza, castidade.

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As amigas conversavam animadamente sentadas ao redor da mesinha de centro sobre o tapete felpudo da pequena sala de estar do apartamento de Mariana. Daquela vez as cinco se reuniram para comemorar o dia 8 de março de um modo diferente. Estavam cansadas de fazer programas nos quais pareciam ter a obrigação de mostrar quanta liberdade tinham para imitar os homens, fingindo divertir-se com piadinhas machistas ao contrário, com representações patéticas de superioridade nas quais procuravam exsudar todo o ressentimento acumulado durante o ano através de um festival de insultos que não poderiam ser ditos diretamente aos seus chefes, colegas, pais, irmãos, maridos, namorados, porteiros, professores, vizinhos e a todos aqueles que as atormentavam cotidianamente com perfeita naturalidade e que não iriam mudar em nem uma vírgula o seu modo de ser depois de mais um Dia Internacional da Mulher. Alguns dias antes, Mariana havia lido em uma revista um artigo interessante, no qual a colunista dizia que o feminismo era uma luta fadada ao insucesso porque, na verdade, era uma reivindicação a uma participação igualitária em um modelo de sociedade concebido sem uma participação efetiva da mulher. Isso porque ela sempre esteve ocupada demais em remendar os estragos provocados pelos homens durante suas maravilhosas conquistas através das quais direcionaram a nossa espécie para a autodestruição. Qualquer conquista obtida através do feminismo, apesar de ser melhor do que nada, é apenas mais um passo dado na direção de uma adaptação forçada das mulheres a essa lógica, esterilizando elementos que seriam fundamentais para se chegar a um equilíbrio. Dizia que era preciso atentar para o fato de que não estava sendo levada a sério a urgência de se fazer um pouco de silêncio para deixar vir à tona tantas certezas que as mulheres reprimem há tanto tempo como se fosse vergonhoso e indigno cultuar a vida nas suas formas mais profundas. A vida. A terra. A vida que ela é capaz de carregar dentro do seu corpo como a terra faz com todos nós. O artigo terminava com uma afirmação que deixou Mariana intrigada: “o mundo precisa de mais bruxaria e menos histeria”. Ela se considerava uma pessoa razoavelmente culta, havia cursado uma boa faculdade, concluiu diligentemente o curso de mestrado, viveu algum tempo no exterior e estava pensando em começar um doutorado. Atualmente trabalhava em um órgão público. A sua área de atuação não tinha nada a ver com história, sociologia ou filosofia, ela era só uma pessoa que se interessava por aquilo que estava acontecendo com as pessoas de um modo geral. Não era do tipo que buscava aprofundar-se nos problemas éticos e humanísticos mais em voga através de obras especializadas, preferia ler romances e artigos que usavam uma linguagem direta e compreensível ao público comum. Não gostava de livros de autoajuda, mas, não raras vezes, sentiu que seria bom se pudesse contar com um pouco mais de ajuda para resolver suas crises pessoais. Tinha algumas boas amigas com as quais podia conversar de vez em quando, o que já era algo extraordinário, pois conhecia pessoas que só tinham colegas que se viessem a conhecer alguma sua fraqueza podiam puxar o tapete debaixo dos seus pés a qualquer momento. Não conseguia deixar de concordar quando alguém comentava que o mundo estava ficando cada vez mais louco. “Isso que estão fazendo é uma loucura, você não acha?” e ela balançava a cabeça anuindo “é verdade, é uma loucura”, “se continuar desse jeito, aonde a gente vai parar?”, e ela, sem conseguir formular nenhuma resposta plausível e tentando espantar uma série de imagens apocalípticas que passavam instantaneamente pela sua cabeça, repetia “aonde a gente parar, né?”. Intimamente sabia que todo mundo sabia que havia alguma coisa bem errada no ar. Sentia sempre aquela sensação familiar que leva as pessoas a adotarem uma frase de efeito para enfrentarem as situações absurdas do dia-a-dia, como um modo para dizerem a si mesmas que estão cientes do problema, não podem fazer nada e seguem adiante assim mesmo. Tinha sempre uma na manga para qualquer eventualidade. Adorava a antimanicomial “de perto ninguém é normal”, pois ajudava a aliviar a tensão quando tinha que lidar com personagens realmente difíceis. Gostava também da frase irônica de Joel Santana “se cobrir vira circo, se cercar vira hospício”, quando se tratava de algum acontecimento incompreensível de forte caráter nacional. Recitava com um certo orgulho “na maioria das vezes, um pepino é só um pepino”, de Freud, quando tinha urgência em desmistificar as coisas, e partia logo para o ceticismo extremo de Nietzsche com “a crueldade é um dos prazeres mais antigos da espécie humana”, quando a coisa parecia realmente sem esperança. No fundo, eram todas frases conformistas e ela sabia disso. Porém, aquela frase sobre histeria e bruxaria instigou a sua curiosidade de um modo diferente. Achou uma ideia interessante, mas não sabia exatamente o que uma coisa tinha a ver com a outra. Pesquisou na internet e verificou a que histeria há algum tempo havia sido desmistificada pela psiquiatria e perdera a conotação que tivera desde a antiguidade, quando foi considerada um distúrbio ligado a um mau funcionamento do órgão sexual feminino – como indica o próprio nome que provém de uma palavra grega que significa útero – e, após o surgimento da psicanálise, vinha sendo tratada como uma neurose causada por lembranças reprimidas de grande intensidade emocional. Atualmente, o termo histeria era considerado um conceito genérico, tendo sido ramificado em conceitos clínicos mais específicos. Durante a Idade Média, a manifestação dessa doença, que atingia principalmente mulheres e envolvia, além da instabilidade emocional, sintomas físicos tais como cegueira, surdez e paralisia, foi comumente confundida com feitiçaria e tratada, ou extirpada, com torturas, exorcismos ou assassinatos. “Muito bem”, pensou, “e a bruxaria?” Também. Bingo! O que era a bruxaria então? Sentiu uma sensação estranha ao se fazer esta pergunta. Já tinha visto muita coisa sobre isso, filmes, livros, cresceu ouvindo contos de fadas nos quais sempre havia uma bruxa malvada e nariguda. Uma vez havia se fantasiado de bruxinha sexy para ir a uma festa de Helloween, e foi muito divertido. Enfim, era uma imagem banalizada, vazia. Na melhor das hipóteses, o misticismo feminino era uma alusão a um mundo sobrenatural transformado em uma metáfora da realidade, uma alegoria de coisas irracionais, intangíveis e incontroláveis que deviam ficar à margem de uma vida sã. Seria a ridicularização da sua imagem uma outra forma de fogueira na qual o seu significado mais profundo transforma-se em fumaça e cinzas? Respiramos no ar essa fumaça e caminhamos tranquilamente sobre suas cinzas? Sentimos atração ou repulsa pela ideia de algo que não existe? Por que é uma ideia que persiste no nosso imaginário? Surge da mesma forma em que surge a ideia que temos de Deus? É uma ideia que se contrapõe à ideia de Deus? Pensando sobre essas coisas, Mariana concentrou-se na imagem que fazia de Deus. Na sua mente, se Deus fosse alguém, ele seria um homem. Nunca vira Deus como uma mulher. Ela era uma mulher e via Deus como um homem. O que isso queria dizer? Que ela era menos semelhante a Deus do que os homens? No fundo, isso representava ter consciência da própria inferioridade? Se algum dia a sua razão pudesse suprimir completamente a sua religiosidade, essa sensação de inferioridade desapareceria ou se reforçaria ainda mais? O que lhe restaria? Não sabia por que estava indo tão longe com aquela história. Talvez porque estivesse tendo muito tempo para pensar ultimamente. Um certo vazio invadira a sua vida de um modo que ela não imaginara ser possível acontecer com alguém nas suas condições, quando tudo parecia estar encaixado no devido lugar. Não era um vazio no sentido de não saber o que fazer. Tinha metas a alcançar, uma carreira pela frente, planos de continuar os estudos, lugares que gostaria de conhecer ao redor do mundo. Morava bem, comia bem, tinha um bom carro, um bom salário. Dormia bem. Relacionava-se bem com seus pais e irmãos, embora os visse esporadicamente, quando tinha alguns dias de folga e podia viajar para o interior. Era vista como um exemplo para as suas sobrinhas, a tia independente e inteligente que conseguiu tudo o que queria na vida. “E ainda é tão nova”, diziam sempre ao se referirem a ela. Mas sentia um grande vazio dentro de si. Sabia que nesses momentos as pessoas têm que ficar muito atentas para não caírem em armadilhas. “Está cheio de espertalhões por aí querendo preencher o vazio de pessoas vulneráveis que se deixam manipular por um pouco de consolo. Não sou idiota. A verdade é que parece que uma parte de mim está dormindo, como se estivesse anestesiada, e tenho a impressão de conseguir conviver com isso até o fim da minha vida, mas não sei se quero continuar desse jeito.” Há muito tempo Mariana não sentia mais atração por ninguém. Não havia passado por nenhum episódio traumático, ou qualquer coisa do tipo. Seus hormônios estavam sendo regularmente produzidos pelo seu corpo, conforme o resultado dos últimos exames que havia feito. Não havia nada de errado com ela. Começou a pensar que talvez fosse lésbica. Tentou sair com uma mulher que conheceu nas aulas de aeróbica que vinha dando algumas investidas na sua direção. Foi frustrante para as duas, pois não rolou nada. Mariana acabou se abrindo no final e as duas acabaram trocando confidências, como boas amigas. Passou a encarar a coisa como uma situação passageira, que mudaria sozinha com um pouco de paciência. Mas não mudava. Achou que talvez a abstinência de sexo fosse uma característica da sua personalidade, como poderia ser o caso de tantas religiosas que fazem voto de castidade e vivem serenamente. Leu algumas histórias de santas e ficou surpresa ao saber quanto fervor elas sentiam dentro de si. Algumas narravam detalhadamente momentos de arrebatamento espiritual durante os quais se sentiam completamente possuídas pela presença divina. Leu atentamente as palavras de Santa Teresa D’Ávila que inspiraram o célebre escultor Bernini a representá-la na pedra como se ela estivesse flutuando de êxtase espiritual após ter sido transpassada pela lança ardente de um anjo. Pensou que talvez esse tipo de arrebatamento fosse reservado às santas e que as freiras mais comuns fossem apenas frias, como ela. Tudo era muito confuso na sua cabeça. Estava tudo bem e também tudo mal. Sentia-se normal e anormal ao mesmo tempo. Ouviu falar de sublimação, processo no qual algumas energias instintivas primitivas, entre elas a sexualidade, são canalizadas e transformadas em coisas sublimes tais como obras de arte e feitos hercúleos. Chegou à conclusão de que este também não era o seu caso, pois não havia nada de extraordinária naquilo que fazia. Não estava sublimando nada ultimamente. Nem sabia direito o que aquilo significava. Quando ouviu falar de bruxaria, de forças interiores que haviam sido esquecidas em um passado distante, de fluxos cósmicos em constante movimento, de energias da terra, de mistérios da vida e da sexualidade algo pareceu reagir dentro dela. Pensou que talvez essas coisas pudessem ajudar. Comprou um livro que ensinava algumas práticas que poderiam ser feitas por pessoas leigas para iniciar-se na magia – magia branca, obviamente. Foi então que teve a ideia de preparar alguma coisa para fazer com suas amigas. Ligou para elas marcando o encontro para a noite do dia 8 de março, data perfeita para começar a incentivar a mulher que se escondia dentro dela a sair para a vida. Estavam todas presentes naquela noite, sentadas ao redor da mesinha decorada com objetos rituais recém-adquiridos e com os pés descalços que alisavam o tapete felpudo. A luz estava apagada e algumas velas acesas perfumavam o ambiente. Mariana havia preparado um breve ritual para que entrassem no clima e pudessem passar para a segunda parte, quando cada uma teria que responder a algumas perguntas íntimas. Já havia passado mais de uma hora e ainda não haviam começado, pois as amigas não paravam de falar. A anfitriã não queria ser indelicada e pedir silêncio, pois sabia que elas não se viam há algum tempo e conversar um pouco também fazia parte do processo, mas já estava ficando impaciente. De repente, para sua surpresa, a Selminha tirou de uma sacola uma garrafa de bebida que continha um líquido verde bem vivo e uma caixinha com cubinhos de açúcar. Todas aplaudiram muito animadas, menos a Mariana. “Isso aqui é uma maravilha, Absinto do bom, também conhecido como Fada Verde. Só preciso de água gelada e de umas taças. Vou lá pegar, tá?” E foi levantando ao som de “Viva a Selminha, Selminha boa companheira!”. Mariana foi atrás da amiga que já estava na cozinha abrindo a geladeira. Sussurrou baixinho para que as outras não pudessem ouvir: 
“O que você está fazendo? Assim, vai estragar tudo o que programei para fazermos hoje. Eu disse que era importante para mim”. 
“Relaxe, querida. Por que ficar tão tensa? Vai dar tudo certo, você vai ver. É só você ficar boazinha e relaxar. Onde estão as taças?”
Mariana pegou as taças e levou-as até a mesinha. As outras perceberam que ela estava contrariada e trocaram olhares cúmplices. O primeiro drink preparado foi para ela. Era gostoso, refrescante, forte. Ela foi bebericando devagar enquanto observava a Selminha preparar os outros drinks. Aquilo tinha um efeito hipnótico. Ela colocava um cubo de açúcar sobre um garfo deitado nas bordas da taça, derramava sobre ele uma quantidade abundante de líquido verde, depois, aproximava a chama de uma vela e o cubo se incendiava. O açúcar ia derretendo e mudando levemente de cor enquanto espalhava vapores adocidados e aromatizados pela sala. Não era o que havia imaginado para aquela noite, mas também não era tão ruim assim. Afinal, encher a cara também era um ritual. Fizeram outra rodada, e mais outra. Mariana ouviu alguém dizer que queria dançar. Chamaram um táxi. No trajeto do apartamento até a portaria, que parecia bem mais longo do que de costume, alguém perdeu o equilíbrio e se segurou em quem estava por perto. Três corpos cambalearam e caíram no chão fazendo um barulho de saltos riscando o piso e ossos batendo contra uma superfície rígida. Bolsinhas plainaram no ar e batons projetaram-se como jatos supersônicos contra a parede. As duas que ainda permaneciam em pé também despencaram no chão, pois não conseguiam rir e manter o equilíbrio ao mesmo tempo. Uma porta se abriu no corredor e alguém começou a falar alto e a gesticular. Mariana gatinhava para alcançar algo sólido onde pudesse se apoiar para colocar-se em pé, mas era uma tarefa difícil. Viu algumas mãos que balançavam o dedo médio levantado na direção de uma figura de pijama que logo em seguida bateu a porta com força. Apoiaram-se umas nas outras e conseguiram ficar de pé. Estavam todas inteiras. O porteiro apareceu perguntando se precisavam de ajuda. “Dona Mariana, a senhora sabe que já é tarde, os moradores reclamam...” ela tentava manter uma certa compostura enquanto lutava para conter as amigas que tentavam formar a figura de uma divindade indiana com vários braços levantados mostrando o dedo médio. “O táxi da senhora já chegou”, disse ele, por fim, mantendo uma certa distância de segurança. Quando finalmente a trupe ultrapassou a porta do prédio e ela se fechou nas suas costas, ele fez um respiro profundo de alívio. O taxista não ficou muito feliz com a ideia de carregar cinco bêbadas de uma vez no seu táxi, mas achou melhor não discutir. Elas que se amassassem no banco de trás. Pegou um pedaço de papel com o endereço e afundou o pé no acelerador para se livrar logo delas. Olhou pelo retrovisor e viu que ao serem jogadas de um lado para o outro como sacos de batata se divertiam mais ainda. Desovou-as na porta da discoteca, que estava muito cheia por ser um dia de semana. “Deve ser por causa dessa porra de Dia da Mulher; elas ficam nesse estado e depois ainda reclamam quando acontece alguma coisa”, pensou consigo mesmo; olhou-as com um ar de reprovação enquanto uma delas tentava pegar a quantia certa de dinheiro na bolsinha. “Fique com o resto. Depois nós vamos chamar o senhor de volta, mais tarde, tá bom?” Ele anuiu, pegou o dinheiro e foi embora. 
Dentro da discoteca, o som e as luzes transportaram-nas diretamente para a pista de dança lotada. Depois de algum tempo dançando desvairadamente, aproximaram-se delas alguns rapazes, jovens e bonitos. Mariana reparou que Laura parecia conhecê-los. “Nossa, que coincidência!” exclamou e apresentou-lhe um deles dizendo que era um colega do escritório. Seu nome era Renan. Tinha um sorriso realmente encantador. Não saía do lado de Mariana e não perdia nenhuma oportunidade de esbarrar no seu corpo e, algumas músicas depois já segurava a sua cintura com mãos firmes e fortes. Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa. A essa altura ela já estava fervendo por dentro. “Uau, esse cara é demais”, pensou. Olhou ao redor e as amigas haviam desaparecido. Ele sorria esperando uma resposta. “Que se dane, sou capaz de ir atrás dele até o fim do mundo”. Saiu da pista segurando a mão dele. Em um ponto mais escuro, ao reparo de uma coluna, ele parou e prensou o seu corpo contra o dela. Deu-lhe um beijo no pescoço. Foi dando beijos demorados na sua pele suada até alcançar a sua boca. “Perdi minhas amigas” disse-lhe por fim Mariana, “você pode me levar para casa?” E assim fizeram. Chegaram no apartamento dela e completaram o ritual previsto para aquela noite. De um modo ou de outro, era aquilo que ela queria. Suas amigas entenderam direitinho que por trás de toda aquela história que ela havia inventado, era aquilo que estava querendo encontrar. “Meu Deus, como é isso bom! Como eu pude ficar tanto tempo sem sexo?” pensou ela quando terminaram. Ele era o máximo, conhecia posições incríveis, sabia excitá-la no ponto justo e depois levá-la ao delírio com seu instrumento masculino perfeitamente torneado que tinha o tamanho certo, a temperatura certa, o ritmo certo. Durante todo o tempo em que passaram juntos deve ter dito umas quinhentas vezes que ele era um tesão de homem. Ela só achou meio estranho que logo depois da gozada final ele não tenha deitado novamente ao seu lado. Recuperou o fôlego sentado na beirada da cama. Tirou a camisinha e ela reparou que estava seca. Olhou espantada para ele que a assegurou que estava tudo bem, que havia sido ótimo para ele também. Sorriu-lhe gentilmente e começou a vestir-se. Mariana também se sentou apoiando as costas na cabeceira da cama e cobrindo os peitos com um pedaço do lençol; a sua cabeça girava, estava meio tonta, mas assistiu a toda cena. Em dois minutos ele estava completamente vestido e calçava os sapatos. “Você já vai embora?” disse ela sentindo que o vazio que costumava dilacerar a sua alma sem nenhuma piedade já começava a se apossar de tudo lá dentro. Ele procurou alguma coisa no bolso da calça. “Não se preocupe, suas amigas já pensaram em tudo. Quando precisar, pode me chamar nesse número” e entregou-lhe um cartão de visita. Caminhou na direção da porta e disse de um modo muito profissional:
“Nem precisa se levantar, eu sei onde é a saída. Foi um prazer conhecer você.”




sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A Ira



(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)


Ira: palavra que provém do latim ira. Pecado capital definido comumente como “emoção excessiva e violenta, paixão despertada por um sentimento de injustiça ou erro”. Quando a cólera se manifesta como justa indignação e dentro de limites razoáveis, ou seja, no momento adequado, contra quem a merece e com intensidade prudente, é uma virtude, não um vício. Torna-se um pecado quando está associada a motivos egoístas, alimenta sentimentos nefastos e provoca reações desastrosas. Gera insulto, perturbação, indignação, clamor, cizânia, disputa, blasfêmia, assassinato. Sinônimo: belicorreia: (belicosidade + -rreia) designativo de uma disfunção psicológica caracterizada pelo fluxo contínuo de ódio, raiva, cólera, fúria, violência e vingança. É o forte desejo de causar mal ao outro e um dos grandes responsáveis pela maior parte dos conflitos humanos. Em acepção política, é designativo de um índice atribuído aos países conforme a sua capacidade de responder belicamente a uma agressão; o índice é expresso em valores de 1 a 100 e é calculado com base em vários fatores, entre eles, o orçamento reservado à compra de armas. Através deste índice determina-se a relevância dos países para a resolução de conflitos internacionais e a sua capacidade de garantir a paz mundial. Por volta do século IV D.C., a classificação dos principais vícios humanos em pecados capitais distinguia um oitavo pecado: a Tristeza, que mais tarde foi incorporado à Ira, sendo considerado, então, parte dela. Antídoto ou virtude: paciência.



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Noemi havia escovado os dentes depois do jantar e aprontava o material para a aula do dia seguinte. Sentia-se um pouco desanimada com a ideia de ter que acordar cedo para ir à escola. Estava com o saco cheio da escola, ainda bem que faltava pouco para terminar o terceiro ano e em breve ela estaria fora. Preferia mil vezes ficar no seu quarto ouvindo música e lendo. Adorava ler, mas não qualquer coisa. Já havia adquirido bastante experiência para distinguir textos bons de textos ruins. Era capaz de se resignar a ler um livro de quatrocentas páginas apenas para conhecer mais profundamente o estilo de um escritor, mesmo que não fosse o seu gênero preferido. Sabia a diferença entre respeitar a obra de um autor talentoso que não era do seu agrado e simplesmente achar que se tratava de uma obra ruim. Eram coisas completamente diferentes. Pena que não conhecia muitas pessoas com as quais pudesse conversar sobre esse assunto. Costumava ficar impressionada com a imbecilidade dos seus colegas de classe. A maioria deles era completamente idiota. Às vezes pensava que seria melhor se estudasse em um zoológico. Pelo menos ali não haveria expectativas frustradas de estabelecer um contato com criaturas hipoteticamente inteligentes; uma zebra poderia continuar tranquilamente a ser aquilo que sempre foi, sem decepcionar ninguém. Seria um ambiente bem mais divertido e honesto. “A fauna toda comendo e cagando sem que ninguém a perturbasse, que beleza.” Ela achava que a única explicação para aquela situação é que algumas pessoas nascem para passarem a vida inteira fazendo só aquilo. Para pensarem que tinham um pouco de liberdade bastaria que tivessem um trabalho, então passariam de manhã de uma jaula para outra, fariam alguma coisa repetitiva sem sentido durante o dia todo, comeriam e cagariam novamente, e de noite voltariam satisfeitos para as suas jaulas-dormitórios. Suas jaulas poderiam ser próprias ou de aluguel. “Os humanos são bichos burros mesmo” pensava Noemi. “Os bichos do zoológico não pagam nada pelas jaulas onde vivem porque estão em cativeiro e ficam expostos à curiosidade dos outros, que se divertem ao observá-los em um espaço reduzido, como se um ser selvagem que renunciasse à própria liberdade precisasse ganhar um bônus vitalício para morar de graça. Na nossa sociedade é preciso cometer algum crime bem horroroso para ganhar esse bônus. E depois de trinta anos o bandido tem que sair e logo cometer outra barbaridade qualquer para ver se consegue mais um bônus de trinta anos. “Ah, mas tem sempre um espertinho que vai dizer com a boca cheia de papilas gustativas impregnadas de sabedoria: mas isso não é vida, o sujeito tem que renunciar à própria liberdade. Me dói o estômago ouvir esse papo furado. Alguém por acaso sabe o que é liberdade? Hem? Alguém consegue me mostrar de modo coerente – atenção, eu disse de modo coerente – o que é liberdade? Posso até esperar o tempo que for necessário. Você tentou, não é, seu idiota? Como é possível ser livre e se prender às rédeas da coerência ao mesmo tempo? Você é só mais um que acha que sabe o que é liberdade, mas nem imagina o que seja isso. Você vive se reprimindo com medo de perdê-la, mas nunca a experimentou na sua vida. Por que você acha que o céu é infinito? Ele está em cima da cabeça de todo mundo, e quando você sai da jaula ele começa logo depois do seu fio de cabelo mais alto e não tem mais fim, e você nunca reparou que tem a sorte de ser o prolongamento dessa coisa infinita. Você é a parte do céu que caminha sobre a terra. Você é livre por natureza, seu imbecil, livre. Está confuso? Quando você era pequeno disseram que a sua liberdade termina onde começa a do outro, não é mesmo? Tem que ter respeito pelo próximo. Você quer falar de liberdade ou de respeito? Liberdade não é um espaço que alguém rouba de outra pessoa, não é um terreno com escritura no qual você coloca uma cerca de arame farpado. O que seria ter respeito pelo próximo? Quem é o próximo? Você me respeita? Se disse que sim, está mentindo. Você não me conhece, como pode me respeitar? Respeita porque sou um componente da sua espécie, assim, de modo impessoal e coletivo? E você acredita mesmo que é capaz de respeitar os componentes da sua espécie? Faça-me rir. Você confunde respeito com distância. Para você aquela frase escrita na rabeira dos caminhões que diz “mantenha a distância” é a ideia mais bem elaborada daquilo que você consegue definir como respeito. Para você, ter liberdade e respeito é manter a devida distância dos outros. Não tem nada a ver com ser uma parte do infinito e deixar que os outros também sejam. Você quer uma casa bem grande, com cômodos enormes, bem separada da rua, do seu vizinho, do mundo. Você quer ter dinheiro suficiente para pagar dignamente por todos os centímetros que separam você do mundo e das pessoas da sua amada espécie. Você precisa de tudo isso porque não tem ideia do que seja respeito pelo próximo. Nunca experimentou nada parecido. Ah! Já sei. São os outros que não sabem respeitar você. Pelo menos nessa deficiência a nossa espécie se reconhece como coletividade. Precisamos conquistar o respeito dos outros do mesmo modo que os leões na savana. Somos territoriais. Precisamos mostrar as nossas armas e expor toda a nossa capacidade de reagir com violência, senão ninguém nos respeita. Precisamos de reis e governantes na mesma medida em que nos comportamos como animais selvagens. Pensando bem, acho que somos só isso mesmo. Você é capaz de me dizer qual a diferença entre um governante que tem um exército armado até os dentes e um leão que defende seu território? É que um leão luta sem ter um exército armado até os dentes. Reformulo a minha afirmação. Pensando bem, acho que não sabemos nem mesmo ser selvagens. Somos patéticos. Somos a grande piada do universo. Às vezes imagino se em outros planetas os seres mais evoluídos não se divertem às nossas custas. Bom humor é uma característica de seres evoluídos, não é? Bem, talvez eles tenham instalado uma rede de câmaras de vídeo por aqui no estilo Big Brother e projetem cenas do nosso cotidiano nas paredes de antigas jaulas de zoológicos e cadeias que eles desativaram há séculos. Talvez tenham instalado câmaras microscópicas no corpo dos grandes poderosos do mundo e transmitam ao seu público imagens de reuniões de cúpula nas quais eles expõem, satisfeitos como porcos chafurdando, as importantes medidas que pretendem adotar para salvar o mundo de um desastre iminente. Depois mostram imagens da vida privada dos mesmos poderosos falando e agindo de modo contrário em relação a tudo o que afirmaram antes. Imagine só o que eles devem tagarelar quando pensam que ninguém está ouvindo: eu não quero mais ouvir falar de orçamento para ajudar esses mortos de fome. Por que eles não morrem de uma vez e param de encher o saco? Você sabe que se as pessoas improdutivas morressem sobrariam mais recursos para quem conta de verdade. Não importa se são crianças ou idosos. Qual o custo-benefício desta brincadeira de ficar prolongando a vida de gente inútil? A sociedade não foi organizada para esse tipo de coisa. Está vendo este mapa? Se tudo continuar conforme as nossas previsões, em breve vamos invadir aqui porque a nossa ideia de colocar este trouxa contra aquele outro deu certo e eles estão se matando em um ritmo decente. Claro, podemos tomar algumas medidas para acelerar um pouco o processo. Vamos mandar mais armas para eles? Acho uma boa ideia. Vamos fazer o possível para lucrarmos bastante dessa vez. Não se preocupe com a morte de civis. Ninguém mais liga para isso. Há um outro problema. A população está meio agitada com essa história da educação. Existem uns lunáticos publicando umas matérias subversivas que podem provocar alguns protestos. Tente desmoralizá-los e, se não der certo, faça do jeito tradicional mesmo, desça o cacete em quem estiver reclamando. Se a tensão aumentar, vai ser fácil desviar a atenção. Entre em contato com algum grupinho radical e incentive os fanáticos a matarem um punhado de pessoas em algum lugar público. Deixe os carniceiros da imprensa terem acesso a toda a operação de repressão ao terrorismo. Eles adoram, também lucram muito com isso. Divulguem bem o rosto dos bandidos cretinos durante a caçada. As multidões precisam ver um rosto. Precisam ter um rosto sobre o qual cuspirem. Explorem bastante a história pessoal das vítimas. Peça para mostrarem bem os corpos destroçados e as famílias das vítimas chorando. Isso é indispensável. Se houver filhos pequenos, melhor ainda. Podemos até fazer um funeral de estado, colocando as vítimas como heróis. Heróis do quê? Sei lá, de qualquer coisa que se oponha àqueles que foram capturados como criminosos. Heróis da Liberdade. Não ficou bom? É muito genérico? Ah, as vítimas não se opunham a nenhuma causa, só estavam passando ali no momento errado. Então podemos colocar “Heróis da Porra do Azar”. Também não ficou bom? Então pense você em alguma coisa, seu incompetente! E aquela questão das terras devolutas, o governo de lá já liberou a ordem para tomar posse de tudo? Ainda não? Eu já falei que isso era urgente! Já está tudo pronto para começar a escavar. Há anos estamos implantando este projeto e agora não dá mais para prolongar essa história. Cada dia que passa é dinheiro jogado fora. Está me dizendo que não conseguem tirar dali meia dúzia de desgraçados que não querem se mudar para a cidade? Agora me responda: por que eles insistem em ficar naquelas terras se nós já envenenamos tudo e não tem mais nada que cresça naquele deserto? Por quê? De onde eles estão tirando água para beber? Ah, uma ONG fez um poço para eles. Puta que o pariu! Por que vocês não impediram? Eu movo montanhas para foder com o lugar e vocês não conseguem impedi-los de receber ajuda? Agora tenho que foder tudo de uma vez. Mande alguém lá para inspecionar o poço e dizer que a água não é boa. Se reclamarem, coloquem alguma coisa na água para que eles nunca mais queiram usá-lo. Sei lá que tipo de coisa, fale com o pessoal competente. Não me interessa se eles só vão cagar as tripas ou se vão morrer. Vejam o que é melhor e mais rápido. Se achar que a morte de seis famílias naquele fim de mundo vai chamar a atenção de alguém, deixe-os vivos e ofereça a mesma ninharia que deu para os outros como ajuda humanitária para acelerar a transferência deles. Faça isso através daquele órgão internacional que sempre trabalha com a gente. Isso, aquele. Só não deixe que eles chamem muito a atenção. Eu sei que eles adoram fazer propaganda com este tipo de coisa, mas, você sabe, discrição é a alma do nosso negócio.” Noemi fechou o zíper da mochila de modo tão brusco que ele saiu na sua mão. “Que bosta de zíper! Eu falo para minha mãe não comprar mais essas porcarias descartáveis produzidas por escravos lá do outro lado do mundo. É tudo malfeito de propósito, para durar pouco. Consomem matérias-primas como gafanhotos. Eu odeio tudo isso aqui, tudo! É tudo uma grande bosta!” Jogou a mochila no chão e chutou-a para longe. Viu de relance a própria imagem no espelho. Parou um pouco para prestar atenção. Era uma mocinha com o rosto magro, cabelos escuros escorridos colocados atrás da orelha, sobrancelhas quase unidas na base do nariz, logo acima dos óculos. Seus olhos também eram escuros e profundos. Dois poços escuros de tristeza e rancor. Não gostou do que viu. Naquele momento teve certeza de que seria capaz de matar.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A caminho da estação

Quando bati a porta, enfiei a chave na fechadura e fiz com que completasse três voltas. Tirei a chave da porta, dei as costas para ela e segui em frente pelo corredor. Desci as escadas do prédio, como se fosse um dia normal, igual a todos que vivi durante esses últimos anos. É engraçado como foram aparecendo novas marcas na parede com o passar do tempo, em relação às quais ninguém se importava muito, talvez porque tenham surgido de mansinho, sem pedir licença, mas sem fazer alarde. Fui descendo os degraus prestando atenção pela primeira vez naqueles desenhos feitos pelo acaso. Apertei a bolsa contra o corpo e senti bem as formas das coisas que estavam jogadas lá dentro. Havia de tudo: carteira, batom, desodorante, lixa de unha, remédios, papéis de bala, porta-moeda, escova de cabelo, envelopinho de cartão com linhas multicoloridas e uma agulha, uma porção de recibos de supermercado que precisavam ser jogados no lixo, a chave de casa. Hoje não vou para o trabalho. Ainda bem, estou tão cansada daquilo! Acho que nunca mais vou colocar os pés naquele escritório. Não avisei ninguém. Eles que se arranjem com o pessoal que está por lá. Sempre tem gente nova querendo uma oportunidade para mostrar que sabe fazer as coisas tão bem quanto os dinossauros que estão lá desde tempos imemoráveis. Eu sou um desses raros exemplares. Sei que é assim que eles me veem. Muitos ficarão felizes se eu nunca mais voltar: sobrará mais espaço. Alguns pensarão que perdi a cabeça em abandonar tudo desta maneira. “E a aposentadoria dela, como é que vai ficar? Vai viver do que daqui para a frente?” vão se perguntar com cara de nojo. “Aquela ficou louca” dirão em voz baixa. “Bem que eu vinha notando algo de estranho nela ultimamente” vão cochichar com aquele ar de quem sabe das coisas. Não vou mais voltar lá, nunca mais. Pouco me importa o que vai acontecer. Vou pegar o trem na estação. Aquele das dez e meia da manhã. Acho que antes vou parar naquele bar e comer um pastel de queijo. Sabe há quanto tempo eu não como pastel de queijo a esta hora? Nem me lembro mais qual foi a última vez. Você sempre colocava molho de tomate com cebola no seu. Sempre havia molho à disposição dos clientes em uma vasilha colocada sobre o balcão, sabia-se lá quanto tempo aquilo havia ficado exposto ali. E a colherzinha de plástico que todo mundo usava? Tinha gente que mordia o pastel e jogava mais molho para dentro com a tal colherzinha. Ela encostava na mordida, mas ninguém ligava. Era colocada de novo dentro da vasilha do molho, e tudo virava tempero. Vou comer um pastel no bar, vou sim. Talvez eu coma logo dois. Agora, caminhando pela calçada, vejo que coloquei sapatos inadequados. O salto não é muito alto, mas não dá para andar rapidamente neste chão irregular. Eu gosto de caminhar olhando para frente, não gosto de olhar para baixo o tempo todo, com medo de tropeçar. Coloquei esses sapatos porque ficam bem com as meias-calças, do jeito que você gostava. Elas escondem as imperfeições das minhas pernas, que certamente não são tão bonitas como eram quando eu tinha trinta anos, quando você foi embora. Mas não são tão ruins assim. Você vai ver que eu soube envelhecer bem. Hoje estou notando tantas coisas pelo caminho. Vejo jardins por entre as grades, e alguns são bem enigmáticos. Seguem uma ordem estranha, conforme o gosto de quem foi plantando tudo misturado, sem fazer uma previsão do tamanho que as coisas iam ter depois de crescidas. Observo que algumas flores ficam escondidas por trás das folhagens, e não aparecem muito bem. Uma pena, vão durar tão pouco, deveriam mostrar-se em todo o seu esplendor. Mas que bobagem estou dizendo! Para as flores, quanto importa se conseguimos enxergá-las ou não? Isso não tem nenhuma importância para elas, absolutamente. Desculpe-me. Estou tagarelando como aquelas espertalhonas do escritório. Na verdade, sei que acabei adquirindo algumas manias tendo que conviver todos os dias com aquelas pessoas. Mas não se preocupe. Apesar disso eu sempre conservei meu senso crítico intacto. São apenas pequenos deslizes sem importância, lhe garanto. Você não vai ter uma surpresa ruim quando nos reencontrarmos. Continuo a mesma pessoa que você amou e desamou. Quando penso nisso, vejo como as coisas são engraçadas. Para dizer a verdade, me surpreendi tremendamente ao receber uma carta sua depois de tanto tempo. Há anos não recebo uma carta de verdade pelo correio. Passam-se dias antes que eu resolva esvaziar a caixa de correspondência na portaria do prédio, pois nunca chega nada de interessante. Quando vi que entre as contas a pagar e as propagandas inúteis havia um envelope manuscrito, fiquei até emocionada. Minhas mãos começaram a tremer e a respiração acelerou mesmo antes de ler o seu nome. Não estou querendo ressaltar que não me importava saber quem era o remetente, que receber qualquer coisa que fosse mais pessoal já seria o suficiente para me comover. Só estou dizendo que foi assim que aconteceu. Quando li seu nome, meu coração parou por um instante. Agora deu sinal verde para os pedestres e eu tenho que atravessar a rua com a multidão. Estou olhando discretamente para os lados e vejo que estou rodeada por pessoas jovens. Parecem saber muito bem para onde estão indo. Mas sabem mesmo? Têm noção de onde seus passos seguros as estão conduzindo? Sabem realmente quem são em meio a toda essa gente, nos braços dessa cidade que muda a todo momento? Depois de todos esses anos já não sei dizer se tenho tanta certeza de alguma coisa. Talvez as certezas sejam dádivas reservadas aos mais jovens. Eles têm de acreditar que as coisas têm um sentido para continuarem a levar a vida em direção a um futuro. Depois de uma certa idade, as pessoas passam o bastão e não se importam mais com isso. Advir é uma bela palavra, mas não combina mais comigo. Lembro de você naquela esquina, me esperando para tomar um café. Eu saí do trabalho e você estava lá, me esperando. Eu o vi de longe e reconheci imediatamente as suas formas. Não. Na verdade, reconheci o seu jeito de ficar parado, encostado na parede com um pé apoiado ao muro. Naquele momento eu achei que teria a vida toda pela frente e que seria feliz. Eu soube, com total clareza, que se tivesse sido reservado para mim um destino diferente daquele que eu podia entrever, eu seria capaz de dar um nó nele e estrangulá-lo para que tudo acontecesse do modo que eu pretendia que fosse. Ali, nos passos que nos separavam, coube toda uma vida. Eu engravidei do futuro que teria com você mesmo antes de me deixar tocar por suas mãos. Aquele bar não existe mais. Agora tudo ali está repleto de vitrines, é uma loja bonita. Olhando para o vidro com essa luz da manhã eu apareço como um fantasma em meio aos manequins estáticos. Sou apenas um reflexo enquanto eles são reais. Quando de relance encontro meus olhos, quase não me reconheço neles. Desvio rapidamente o olhar, com a sensação de que eles querem me falar algo que eu não quero saber. É estranho, quase divertido. Não posso ficar muito tempo parada aqui, senão vai ficar tarde. Tenho que chegar à estação e ainda faltam alguns quarteirões. Quanto tempo faz que eu não pego um trem? Nem me lembro mais. Costumávamos ir para o interior na época do Natal, visitar seus pais, você se lembra? Eu ficava quieta durante horas. Você dormia tanto! Eu não. Olhava pela janela a paisagem passar sem sentir que era eu que passava. As coisas pareciam movimentar-se em círculos. Tudo o que estava mais próximo girava muito rapidamente e à medida que as coisas ficavam mais afastadas do trem, a velocidade delas diminuía. Eu era o olho do furacão, imóvel. Você se queixou uma vez e eu não dei atenção. Você disse que a vida era monótona ao meu lado. Eu me lembrei da janela do trem. Achei que você estava correndo em círculos ao meu redor e eu era o olho. Do furacão. Mas atrás do olho não havia nada. Para você, nada. Abriu a janela e saltou, como um gato. Livre, cheio de ideias. Eu fiquei com o apartamento todo para mim. Você não quis nada. Para dizer a verdade, você saiu pela porta. Bateu a porta quando saiu, eu me lembro bem. Aquele barulho aparecia em meus sonhos com muita frequência nos primeiros tempos depois da sua partida e me fazia acordar assustada. Havíamos planejado viajar naquele verão. Eu queria fazer alguma coisa que você achasse estimulante e comprei as passagens em segredo. Era uma surpresa. Estava pagando as últimas parcelas quando você foi embora. Não deu tempo de mostrá-las a você. A porta bateu e elas estavam escondidas na gaveta, embaixo de tudo. Fiquei em dúvida pensando que se eu as tivesse mostrado antes, talvez você não tivesse ido embora. Talvez me desse mais tempo. Mais tempo para nós dois. Não me lamento pelas passagens. Eu não queria viajar para tão longe. Não me importava com isso. Meus sapatos estão me matando. Acelerei o passo e percebo que não os deveria ter escolhido. Não vale a pena machucar-se por futilidades. Mas não adianta saber disso, no fim a gente sempre acaba errando de novo, não é mesmo? Estou imaginando como você estará. Sabe, eu fiz e desfiz a mala umas vinte vezes durante a noite. Tirei tudo do armário e joguei em cima da cama. Espirrei como uma doida, com alergia, pois ali havia coisas guardadas há anos. Um montão de bugigangas! Tentei vestir algumas, mas não me ficavam muito bem. Não sabia o que colocar na bagagem e acabei desistindo da mala. Para que bagagem, não é mesmo? Não quero carregar pesos comigo. Há anos não vou até a estação e começo a achar que não estou no caminho certo. A uma certa altura, devo virar à esquerda, depois à direita e seguir em frente até a avenida. Espere que daqui a pouco vou me lembrar. Deixe-me ver se encontro uma placa com a indicação. Vou ter que perguntar a alguém. É preciso tomar cuidado para pedir informações, pois quando percebem que a pessoa está meio perdida, se aproveitam. Já fizeram isso comigo. Quer saber de uma coisa? Não perguntarei para ninguém, vou seguindo em frente até encontrar uma indicação. Não estou muito distante, sei disso. Morei aqui a vida toda, como posso me confundir? Bobagem, foi só um momento em que as coisas se embaralharam um pouco, mas já passou. Você vai estar esperando na estação? Ou vai chegar em cima da hora, com o trem quase partindo? Não me faça ficar ali aflita a esperar. Não me faça pensar que você não vem, eu não gosto desse tipo de brincadeira. Você sabe disso. Mal posso esperar para ver como está, depois de tanto tempo. Vou encostar a cabeça no seu ombro e vou ficar horas assim, quieta, só respirando. Há uma eternidade não sinto aquela sensação. As coisas rodando, mais rápidas, mais distantes, mais lentas. Eu, quieta. Você dormindo ao meu lado. Não consigo mais caminhar com esses sapatos horrorosos. Por que eu coloquei sapatos assim, por quê? Onde eu estava com a cabeça? Que rua é esta agora? Mudaram as ruas de lugar, fazem sempre isso de uns tempos para cá. É uma brincadeira que fazem para confundir as pessoas. Eles são todos parecidos com você. Brincam comigo. Mudam tudo de lugar e a gente tem a sensação de não entender mais nada. Mesmo assim as cartas continuam a chegar nas casas. Como é possível? Deixe para lá. Chegam porque têm endereço certo, porque o mundo não está doido, por isso chegam onde devem chegar. Quando alguém escreve direito, elas chegam, porque alguém quis que elas chegassem. Alguém escreveu palavras esquecidas que precisavam ser ditas, dobrou o papel, colocou no envelope, escreveu o endereço, levou ao correio, pagou o selo. A sua carta está aqui na minha bolsa. Não é mais sua, é minha. Você já deve estar na estação. Eu já estou quase lá. Não vá embora, as passagens estão compradas. Tirei-as da gaveta hoje de manhã e ainda estavam cheirando a novas. Dessa vez vou mostrá-las e você vai vê-las. Vai pegá-las e cheirá-las e depois vai me abraçar e eu vou encostar a cabeça no seu ombro e tudo vai ficar bem. Tirei os sapatos e joguei-os do outro lado da rua. Quase atingiram algumas pessoas. Não posso fazer nada, eles estavam me matando. Agora vou conseguir chegar em tempo. As meias-calças estão desfiando e enroscando um pouco na aspereza do chão, mas não me importo. As calçadas não são preparadas para isso. Ninguém pensa que elas precisam ser alisadas com cuidado, não podem ser ásperas desse modo, não deveriam ser assim. Estão sujas, as meias ficaram sujas e molhadas. Ali na frente tem um cruzamento. Há tanta gente andando na direção contrária que fica difícil caminhar. Eles estão fazendo isso de propósito? Devo insultá-los? Assim não é possível, eles não me dão espaço! “Saiam do meu caminho, seus bastardos! Vamos! Deixem-me passar!” Agora melhorou, me estão deixando passar sem problemas. Se eu for gritando, eles saem da minha frente. Afastam-se como se fossem o Mar Vermelho. Vejo outra enorme vitrine e a minha imagem passa voando por ela. Eu sou uma imagem que não deixa rastros. Eu sei voar. Eu vou chegar em tempo, meus pés quase não tocam mais o chão. Já consigo avistar a avenida. Mais adiante fica a estação. O que estão fazendo agora? Acho que algumas pessoas estão andando atrás de mim. Talvez me engane. Pode ser apenas uma impressão. Por que iriam atrás de uma pessoa como eu? Não, certamente também querem pegar o trem e estão aproveitando o caminho que vou abrindo. Não sei. Acho que me enganei. Estão mais próximos agora e tentam me fazer parar. Eles não entendem que já é tarde e eu não tenho tempo para conversar. “Saiam da minha frente!” Espere-me meu querido, não vá embora. Por favor. Falta tão pouco! Vou bater neles com a bolsa, não posso ficar aqui parada. Essa droga dessa bolsa tem a alça curta. Por que não peguei uma maior?  “Tirem as mãos de mim! Estou avisando! Eu não estou nervosa, mas me deixem passar! Agora!” Vocês não entendem, não entendem nada. Eu já esperei tanto tempo. Não tenho nem mais um segundo. Eu sou uma gralha, eu sou gritos e asas. Você enviou a carta e já está aborrecido. Estou vendo a sua cara de desgosto. “Soltem o meu braço! Que hospital, vocês estão loucos? Eu não vou para nenhum hospital. Soltem agora o meu braço!” As luzes giram rapidamente, vermelho, cor de laranja. O mar se fechou ao meu redor. Minha voz não tem mais efeito, não se ouve nada. Eu tento e não sai nada. Como eu vou fazer para que você saiba que eu estou a caminho? Como eu vou fazer agora? Assim não vou mais conseguir chegar. Estou usando toda a minha força para me soltar e não consigo. Eles fizeram alguma coisa comigo, as coisas começaram a borrar e a desaparecer. Eu vou desaparecer. Não, não...


Mariângela Souza Ragassi

Assisi, agosto de 2016

Conto

segunda-feira, 28 de março de 2016

Admissão



É difícil admitir certos fatos,
Mas se não fizer isso, não vou conseguir me mover,
Vou cavar minha cova patinando sempre no mesmo lugar;

Vamos lá:
É difícil admitir que cresci sem refletir sobre a ordem natural das coisas,
Uma ordem natural que não nasce da natureza das coisas,
Mas da vontade do homem.

Aprendi que as coisas têm de ser organizadas, porque o caos é o inferno,
Aprendi que qualquer organização é melhor do que o nada.
Qualquer uma.

Aprendi a aceitar a ideia de que as pessoas são naturalmente más,
Que só com mecanismos de repressão é possível conviver em sociedade.
Aprendi que os mais frágeis, os rebentos, os miúdos,
Aqueles que deveriam ser protegidos como plantas delicadas dos predadores adultos,
Também aprendem muito cedo o gosto pela perversão.

Aprendi desde o início que o escárnio dá um prazer imenso,
Que diminuir o outro traz um bem-estar tão pleno e poderoso
Que é quase uma das melhores e mais antigas sensações que estão lá,
Acomodadas na prateleira das minhas armas de sobrevivência.

É difícil admitir, mas é melhor não enrolar muito e soltar logo o verbo.

Não tenho a menor ideia de quem eu sou ou do que eu estou fazendo aqui,
Mas quero estar por cima. Quero ser a melhor.
Aprendi que a vida é uma competição, uma luta perene,
Até o último suspiro,
Na qual ocasionalmente encontramos aliados passageiros,
Mas que no fundo estamos sós. Sempre sós.

É preciso competir desde cedo.
Todos os pequenos aprendem isso.
Têm de se destacar para merecer atenção.
Se não chamam a atenção, não são nada.

Afinal, para que serve o outro?
Para que serve? Para servir?

Aprendi que ser humilde é uma das maiores bobagens que alguém pode fazer na vida,
Que o humilde é a coisa que fica lá, exposta para todo mundo chutar.
Aprendi que os santos são enaltecidos para nos mostrar como não somos
E como nunca deveremos ser.

Aprendi que tenho de ser funcional,
Não para exprimir aquilo que tenho dentro e que quer sair, crescer, interagir, construir, criar
Devo apenas fazer o máximo para esculpir-me e transformar-me numa peça,
Naquela que falta em alguma engrenagem fumacenta,
De uma máquina qualquer que esgote tudo que está ao redor na manutenção da própria existência.

Aprendi que a justiça serve ao poder, que o poder é do mais forte, que o mais forte venceu.
Aprendi que existem remédios para quem sofre de sensibilidade,
Que se dopar às vezes é ilegal, mas nem tanto.
Que todo mundo acaba se dopando, mais cedo ou mais tarde.
Porque o mundo é uma selva,
Todo mundo tem que aprender a pisar nos cadáveres dos próprios sonhos,
E seguir adiante, de cabeça erguida,
Usando a melhor arrogância que conseguir tirar do bolso ou comprar na esquina.

Aprendi que aqueles que desistem e perdem a vontade de viver são tristes exceções,
Embora a depressão seja algo extremamente comum e exatamente a mesma coisa.

Aprendi que a vida em si não é nada, que é algo praticamente sem sentido.
Que tenho que colar em mim algum sentido,
Como em um álbum de figurinhas onde cada espaço vazio é numerado.
Eu preciso comprar as figurinhas certas para não ficar vazia.
Eu preciso ser uma colecionista de mim mesma para ter algum valor.
Eu preciso ter acesso ao poder supremo do medíocre
Que é conseguir comprar na banquinha do mercado algumas figurinhas difíceis
A fim de ter algo notável para trocar.

Aprendi que demonstrar um pouco de simpatia pelos mais fracos às vezes é vantajoso.
Que fingir interesse pelos outros pode abrir portas, para mim.
Tudo isso desde que haja um limite bem definido,
Um verdadeiro abismo,
Entre o que eu digo que é bom para os outros
E o que considero satisfatório para tudo o que se refira à minha ilustre pessoa.

Na verdade, eu sei que não sou o outro.
Eu quero deixar bem claro que pertenço a uma categoria bem melhor que a do outro.
Eu só quero deixar bem evidente que o outro para mim não vale quase nada.
Só serve para que eu possa exaltar minhas qualidades e para lustrar minhas botas,
Com a língua se possível,
Engolindo toda a terra misturada com bosta e,
Ainda de joelhos,
Agradecer com olhar submisso.

Aprendi que é melhor assim. Que é natural que seja assim.
Aprendi tudo isso na escola, nas aulas de História, nas de Educação Moral e Cívica,
No recreio,
No isolamento humilhante das crianças que fediam a urina,
Que tinham cabelo crespo e não alisavam, que não usavam shampoo.
Nas frases ditas com rispidez àquelas que não mereciam ser bem tratadas,
Aos filhos de zés-ninguéns.

E até hoje sou assim e
Não sei o que fazer comigo.

Infelizmente.

Isso eu não aprendi na escola.
Sou brasileira na alma,
Brasileira do pior tipo,
De um tipo bem comum.
Que arrebanhou dos quatro cantos do mundo
O que há de mais infame em matéria sociedade.
Na minha alma a senzala ainda existe.
Não consigo imaginar meu país sem ela,
Mesmo que isso o tenha tornado um lugar absurdo.

É difícil admitir, mas é verdade.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Entrevista no Blog Listas Literárias

O Douglas Eralldo do Blog Lista Literárias publicou uma conversa que tivemos sobre o livro "Memorial das Flores" e outros temas ligados à literatura. É sempre bom poder trocar ideias e fiquei muito contente em participar. Deixo aqui o meu agradecimento ao Douglas, que foi muito gentil em propor a entrevista. Para conferir a matéria na íntegra, clique no título da entrevista:

10 Perguntas inéditas para a escritora Mariângela Souza Ragassi

quarta-feira, 9 de março de 2016

A Gula

(capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)


Gula: palavra que provém do latim gula. Pecado capital definido comumente como a “procura desordenada do prazer no beber e no comer”. Segundo algumas tradições, ao contrário do que lhe é atribuído pelo senso comum, as desordens provocadas pelos excessos relacionados a esse pecado não se restringem ao corpo físico, mas afetam gravemente também o espírito, o psiquismo e a razão. Gera estupidez, alegria vã, loquacidade desvairada, impureza, entorpecimento da alma, morbidez, distúrbios ligados ao abuso de álcool e drogas, euforia e depressão. Sinônimo: consumalismo: (consumismo + canibalismo) vocábulo que designa um ritual no qual os praticantes devoram seus semelhantes vestindo fantasias contemporâneas de abundância. Gula, goela, culpa, excesso, penúria, vazio, alimentação obsessiva do vazio. Antídoto ou virtude: temperança.
...

Beatriz estava deitada na cama de olhos abertos apesar de ainda faltar muito tempo para o despertador tocar. O dia ainda não havia amanhecido, mas não conseguia mais dormir. Havia tido novamente o mesmo sonho. Caminhava por corredores cheios de portas fechadas, iluminados por grandes vidraças embaçadas que deixavam a luz entrar como se ela passasse através de papéis de seda. Não havia nada escrito em nenhuma porta e as maçanetas eram redondas e pareciam normais, mas causavam repulsa. Não queria tocá-las, quase como se elas na realidade fossem um aglomerado de vermes que se desmancharia em contato com a sua pele. Enquanto caminhava não via a si mesma, mas sabia que era ela quem caminhava. Às vezes conseguia enxergar os próprios pés que pisavam naquele chão liso, branco, aparentemente asséptico. Não calçava sapatos e seus pés descalços destoavam daquele ambiente tão bem revestido. Não estava nua. Apesar de não saber que roupa vestia, tinha a sensação de que algo cobria a sua pele. Algo leve e solto, que não impedia seus movimentos. Sua respiração era tão perceptível quanto o ruído dos seus passos. A presença de uma corrente de ar indicava que em algum lugar havia uma porta aberta, ou uma janela. Era um lugar imenso, sem escadas. Quando um corredor terminava diante de uma imponente vidraça, não terminava realmente. Dividia-se em outros dois corredores à direita e à esquerda. Pareciam ser idênticos. Tinha que escolher um deles. Estava cansada de ter de escolher entre coisas iguais. Não há nada mais extenuante do que ter de fazer uma escolha entre coisas iguais. Olhava atentamente de um lado e de outro tentando identificar um sinal, um indício qualquer de que aquele seria o caminho certo, mas não havia nada além das mesmas coisas. Talvez seus olhos não estivessem ajudando, ou não fossem suficientemente adequados àquela luz. “O que eu tenho que ver?” perguntava-se, “o que eu não consigo ver?” Quando estava parada, não ouvia vozes nem passos. Nenhum sinal de vida. Nenhuma ameaça. Só sabia que tinha que continuar. Tinha a sensação de estar ali há horas, há séculos, desde o início dos tempos. Todas as saídas levavam sempre a lugares iguais. Ela só sabia continuar, repetindo infinitamente os mesmos movimentos. Então acordava, ofegante. Sentia a presença de um corpo quente repousando ao seu lado e tinha vontade de acordá-lo para que ele a abraçasse. Mas sabia que era melhor não fazer isso, pois ele também teria dificuldade para dormir novamente e ficaria de mau humor quando finalmente tivessem que se levantar. Seu marido era uma péssima companhia quando ficava de mau humor. Se pelo menos fosse um convite para transar, ele ficaria mais animado, mas ela não estava com vontade. Queria só um abraço. Já haviam superado aquela fase do casamento na qual qualquer momento é bom para fazer amor, e agora dormir mais um pouco de manhã parecia ser mais prazeroso. Beatriz continuou ali deitada, de olhos abertos, procurando não fazer nenhum movimento brusco que pudesse incomodá-lo. Não conseguia entender o porquê daquele sonho. Como acontece com todo mundo, já havia tido sonhos estranhos ou enigmáticos, daqueles que permanecem nítidos na memória durante um breve tempo e aos poucos se desvanecem, como se aquelas imagens nunca tivessem existido. Ela era uma pessoa prática que não gostava de perder tempo com divagações inúteis. Mas a insistência com que aquele sonho vinha se repetindo deixava-a preocupada. “Pode ser um sinal de alerta que eu esteja enviando a mim mesma. Não acredito em premonições e outras coisas desse tipo. Deve ser apenas o meu cérebro querendo me avisar de que é hora de tirar umas férias. Stress, é isso. Estou precisando relaxar, ficar deitada na praia me esturricando ao sol e tomando água de coco.” Lembrou-se de que seu marido havia comentado alguma coisa a respeito das próximas férias. Estava planejando fazer uma viagem para o exterior com um grupo de amigos do escritório acompanhados das respectivas esposas. “Que saco. Essas viagens em grupo são sempre cansativas, cheias de programações banais a cumprir, deslocamentos apressados de uma cidade para outra sem prestar atenção em nada, isso sem contar o fato de que não tenho afinidade nenhuma com as esposas dos seus amigos, sócios ou sei lá como classificá-los. No final das contas, vou ter que concordar com uma série de opiniões só para não me tornar uma pessoa desagradável e para não piorar ainda mais a convivência forçada. Vou fingir muito. Se o Alceu perceber que não estou me empenhando seriamente em me divertir, vai me acusar de estar sendo uma mulher ingrata depois de tudo o que ele fez para organizar a viagem e, como sempre, logo na sequência vai me lembrar de quanto é importante cultivar aquele tipo de amizade para o seu tipo de carreira, que é o mínimo que uma pessoa de visão deve fazer, principalmente no caso de alguém que não tem nenhum talento especial para nada, como eu e, para concluir, vai frisar que eu só consegui ter um emprego bem remunerado em uma revista de renome graças à sua rede de influências. Assim, vai decretar o fim antecipado das nossas férias como casal e passar a dedicar toda a sua atenção aos seus amigos que só carregam as suas mulheres como adereço, figurantes que estão sempre presentes e prontas para confirmar quanto eles são importantes. As mais bonitas também servem para serem ostentadas como troféus de caça. As menos agraciadas nesse quesito ou as que já não conseguem driblar a falta de frescor provocada pela ação do tempo devem ter talento suficiente para continuarem mostrando que custam caro, o que lhes confere uma certa distinção que, apesar de ser completamente artificial, exerce um efeito eficaz no mundo das aparências. Mas todas elas, sem exceção, depositam uma fé exagerada no poder persuasivo das joias, das grifes de luxo, de produtos de beleza que custam quantias estratosféricas e que prometem transformar uma lagartixa marciana em uma top model sueca. Vou ter que aparecer em muitas fotos, sorrindo, sempre. Se estiver com cara de dor de barriga será melhor me trancar no banheiro e só sair quando tiver cagado meu sorriso de volta. Vou ter que comer pouco, bem pouco, pois, mesmo sendo um conceito muito difícil de compreender, aos trinta e dois anos não consigo mais ter o mesmo metabolismo de uma garota de dezoito, embora faça de tudo para manter o mesmo corpo. Vamos visitar confeitarias fantásticas em Paris nas quais vou engolir a própria saliva e mastigar a língua dizendo que só quero uma xícara de café preto. Vamos almoçar em excelentes tratorias italianas nas quais o Alceu vai se arrebentar de tanto comer e eu vou pedir um prato de salada de rúcula e tomate com algumas lascas de parmesão que vou esquecer na beirada no prato. À noite, vão abrir garrafas de vinho das quais eu nem vou querer saber o preço para não correr o risco de revirar os olhos sem querer, dando a entender que não sou sofisticada o bastante para apreciá-las, vou deixar que coloquem o líquido precioso no meu cálice, vou brindar à saúde de alguém ou de alguma coisa que não me importa e depois vou pousar o cálice na mesa, onde ficará esquecido até que o garçom venha buscá-lo para derramá-lo em algum ralo da cozinha. Álcool faz mal para a pele, envelhece. Vou aguentar completamente sóbria muitas brincadeiras sem graça de gente que exagera ao beber socialmente e finge que o mundo é um playground para pessoas adultas bacanas. Ai, que divertido, ah ah. Vamos abrir outra garrafa? Por que você não enfia essa rolha no seu cu? Vou ter vontade de dizer isso, mas não vou falar nada a noite inteira. Vou me comportar direitinho porque não tenho outra opção. Aliás, achei melhor não ter. Melhor não complicar, é mais fácil assim. Afinal, o que eu estou fazendo de errado? Sou apenas uma pessoa ponderada que soube aproveitar as oportunidades que a vida ofereceu graças a um bom estoque de verniz e paciência. Quando o Alceu diz que eu não sou uma pessoa brilhante ele tem razão. As minhas armas não são pungentes, as minhas atitudes não deixam fortes impressões e as minhas decisões não fazem quase nenhuma diferença. O mundo pode estar se esfacelando em mil pedaços ao meu lado sem que eu perca a calma. Sou excelente no papel de assistente. Sei ser invisivelmente eficiente. Sei fazer os outros se sentirem importantes ao meu lado. Não sou bonita, mas sou elegante. Não discuto sobre política. Não faço críticas desagradáveis em público. Aprendi táticas muito boas para mudar de assunto sem causar embaraços. Em geral, as pessoas me consideram inteligente na medida certa, inofensiva. Ao meu lado, até as mentes mais medíocres sentem-se seguras. Não vejo problema nenhum nisso. Qual é o problema? Está indo tudo bem. Tudo bem. Só tenho que dar um jeito nesse sonho que insiste em se repetir e me faz acordar ofegante no meio da noite. Se continuar assim, vou ter que resolver isso antes que chegue o período de férias. Talvez eu faça um tratamento de relaxamento com um bom massagista. A Luíza deve conhecer alguém para me indicar, ela adora essas coisas. Tenho certeza de que uma massagem bem-feita vai me fazer voltar a dormir como uma pedra. Sem sonhos. Sem correntes de ar.” Uma onda de frio atravessou sua coluna fazendo estremecer ligeiramente seus ombros. Sentiu a garganta seca. Descobriu-se lentamente, levantou-se da cama e foi até a cozinha beber um copo de água. No caminho, lembrou-se de um programa que viu na televisão sobre pessoas desequilibradas que pareciam baleias encalhadas dentro de casa, sofriam de depressão porque pesavam centenas de quilos e mesmo assim não conseguiam parar de se levantar à noite para comer tudo o que havia na cozinha. Dizia a si mesma que tinha pena delas, mas, na realidade, desprezava-as. Não conseguia entender o motivo de tanta dificuldade para se controlar. “É a fraqueza da carne. É não saber parar antes que o prazer se torne sofrimento. É tão simples de entender. Algumas pessoas conseguem fazer e outras não.” Na cozinha, bebeu lentamente alguns goles de água e o líquido insípido aniquilou imediatamente a sensação de secura que a incomodava. Apagou a luz e entrou no corredor escuro. Foi tateando pelas paredes até que encontrou a porta do quarto entreaberta. Deitou-se na cama. Poderia aproveitar para dormir mais um pouco. Aninhou-se nas cobertas e adormeceu facilmente. Estava de novo caminhando com os pés descalços no corredor branco. As portas continuavam fechadas. Ao se aproximar do final, a vidraça se transformou em um grande espelho que refletia a imagem do corredor que acabara de percorrer. Ela conseguia enxergar tudo perfeitamente. O chão muito limpo, as paredes revestidas com uma pintura uniforme, uma sequência de portas anônimas perfeitamente esmaltadas, maçanetas escuras que permaneceram intocadas. Mas ela não aparecia na imagem. Gesticulou com as mãos, fez uma pirueta, saltou, mas nada do que fazia se refletia no espelho. Olhou para trás para se certificar de que estava mesmo ali, ocupando aquele espaço. Queria tocar o espelho para ver se era real. Ouviu um grito que vinha de muito longe trazido pela corrente de ar. Alguém chamava o seu nome. Ela tentou responder, mas não tinha voz. Fez um esforço enorme para emitir algum som, mas não conseguiu. O corredor estava completamente vazio.
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O caminho



Nos buracos deste estranho caminho
A estrada teima em desaparecer a cada passo
Os pés pisam no vazio,
Mas os joelhos registram os tombos, um a um
No caminho não há placas
Não há indicações
Não há qualquer alusão aos perigos
Não há faixas de segurança
Às vezes falta luz
Outras vezes falta horizonte,
É noite densa como asfalto
É dia difuso na neblina da alma,
Os olhos não enxergam bem
Mas todos os sentimentos avisam
Que no caminho não há nada
Além daqueles que fazem com que haja um caminho.


Mariângela Souza  Ragassi
Assisi - Fev. de 2016