terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O blog "Listas Literárias" fala sobre o livro "Memorial das Flores"

10 Bons Motivos para conhecer Memorial das Flores, de Mariângela Souza Ragassi

Olá Leitores! Hoje convidamos vocês a conhecer mais uma autora nacional e seu trabalho literário. No post de hoje selecionamos 10 bons motivos para conhecer Memorial das Flores, de Mariângela Souza Ragassi, confira:

1 - Memorial das Flores é a primeira publicação da autora Mariângela Souza Ragassi, escritora engajada que mesmo antes da publicação deste trabalho conseguiu destacar-se em premiações e concursos literários;

2 - Dentre as premiações da autora no campo da literatura, ensino e cultura, podemos destacar que em 1986 foi premiada no concurso literário “A Paz no Brasil e no Mundo” promovido pelo Governo do Estado de São Paulo. Em 1998 venceu o prêmio “Uma Professora Muito Maluquinha” promovido pela editora Melhoramentos e ainda, Classificou-se em 3º lugar no Mapa Cultural Paulista de 2003/2004 com o conto “Lucicleide na Janela”;

3 - Portanto, a autora que em 1998 concluiu o curso de licenciatura em Artes Plásticas na Unicamp - Campinas. atualmente radicada na Itália desde 2006 e trabalhando no setor editorial com traduções para o português, possui bastante intimidade com as letras que indica seu compromisso para com os livros;

4 - Contudo, penetrando diretamente na obra, o livro  foi escrito na cidade de Assisi, Itália, no período de 2014 a 2015 e é uma história que fala sobre quanto é difícil lidar com o acúmulo desordenado das várias camadas de memória que compõem a nossa identidade;

5 - Assim, a narrativa conta a história de três gerações de uma família dividida entre o Brasil e a Itália, cujos integrantes encontram-se aprisionados nas malhas do tempo, como se as suas vidas fossem sobrepostas e determinadas pela recombinação de acontecimentos que se repetem incessantemente, criando uma armadilha, um jogo de espelhos que segrega a memória em compartimentos múltiplos e cada vez mais inacessíveis;

6 - E para quem se interessou pelo trabalho da autora, é possível encontrar nessa página uma série de endereços onde vocês podem adquirir o livro, na Europa ou no Brasil. Na mesma página vocês encontrarão informações necessárias caso queiram comprar o e-book num preço super acessível e justo;

7 - Além disso, vocês também podem encontrar uma prévia do estilo de texto da autora acompanhando seu blog onde é possível perceber sua qualidade e compromisso com a literatura, além é claro de encontrar todas as informações sobre seu trabalho;

8 - Mas para além da temática da memória, os leitores do livro encontrarão também histórias de relações amorosas, e a promoção de encontros entre o passado e o presente em que a reconstituição de antigos acontecimentos é necessária;

9 - Da mesma forma, pode ser interessante observar como a autora trabalha a ambientação de sua obra já que a personagem principal é Flora, uma tradutora brasileira de 30 anos que vive na Itália, país de origem do seu avô. Em 2014 ela é obrigada a voltar às pressas para o Brasil; vejamos que esse é um tipo de situação que pode promover um debate sobre construção de identidade relacionada a vivência em dois países distintos;

10 - Enfim, Memorial das Flores parece bastante promissor pois apenas por sua apresentação já podemos perceber o cuidado e esmero da autora na divulgação de seu trabalho. Certamente é uma boa oportunidade para conhecermos coisas novas e diferentes na nossa literatura, numa obra "binacional" que vale colocar lá em sua estante do Skoob para futuras leituras.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Acídia

     
 (capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016)
  

                 A Acídia


Acídia: palavra que provém do grego akêdía, traduzida como negligência, indiferença, abatimento. Assume também o significado de “sem dor”, no sentido de indolência. No latim tardio foi transformada no termo acedia. Pecado capital definido comumente como torpor melancólico relacionado a um sentimento de insignificância da vida, uma espécie de desenraizamento do homem que se torna incapaz de reconhecer a própria interioridade e praticar o bem. Gera fadiga mental, apatia, inércia, prostração, depressão, desespero, pusilanimidade, torpor, rancor, malícia, negligência, desleixo, descaso, lerdeza, desmotivação, banalização da vida. No século XIII, o teólogo Tomás de Aquino chegou a abordar esse vício classificando-o como “um pecado mal conhecido”, pois, ao longo do tempo, o termo passou por um processo de empobrecimento, perdendo alguns de seus significados, a ponto de ser substituído genericamente por preguiça que, por sua vez, seria somente uma derivação desse vício, significando falta de ânimo, inação, procura desordenada do repouso e do prazer em nada fazer, aversão ao trabalho, inatividade acentuada e inércia. Atribui-se essa substituição às modificações sociais e econômicas ocorridas na baixa idade média que resultaram em uma valorização crescente do trabalho, havendo, portanto, a necessidade de desestimular comportamentos que induzissem a improdutividade. Desse modo, a acídia descaracterizou-se como um vício de natureza espiritual e acentuou-se, cada vez mais, o seu carácter carnal. À preguiça opõe-se a diligência, operosidade (do latim industria). Sinônimo: animotomia (ânimo do lat. animus +-tomia; sufixo relativo a retirada); designativo de um estado patológico que se manifesta através da indiferença em relação ao mundo e está intrinsicamente ligado a uma distorção do conceito de imutabilidade da condição humana. Curiosamente, é um estado que envolve, ao mesmo tempo, a descrença na capacidade de reação interior do indivíduo e a adoção – passiva ou ativa - de artifícios mentais ou materiais extremamente elaborados e complexos como possível solução, distração ou método de mitigação dos efeitos dessa patologia. Desumanização das relações sociais, da educação, da arte, da ciência e da tecnologia. Artificialismo, resignação ao desespero, depressão, suicídio. Antídoto ou virtude: fortaleza. 

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Lídia ouviu que tocavam a campainha insistentemente. Ela morava e trabalhava em um sobrado antigo que ficava em um bairro decadente da cidade. Precisava de espaço para trabalhar porque era artista plástica. Pelo menos era isso que dizia às pessoas quando queriam saber qual era a sua profissão. Não acreditava muito nesse tipo de rótulo. Achava até engraçado o nome. Não sabia o motivo, mas sempre que dizia “sou artista plástica” sentia como se seus braços e pernas fossem capazes de esticar e assumir a forma de tentáculos flexíveis e borrachentos. O mais engraçado de tudo era a cara que as pessoas faziam quando ela dizia que aquela era a sua profissão. Às vezes achava que algumas esperavam que ela se transformasse mesmo em uma espécie de mulher elástico ao som da palavra pláaaaaaaaastica. Mas nada de extraordinário acontecia, nunca. Aquilo que fazia era uma coisa normal como qualquer outra. “Eu vejo o mundo e depois devolvo alguma coisa para ele em forma de arte. Só isso. Que lindo, que poético! Dá até vontade de peidar. Durante um certo período passei a dizer simplesmente que vivia de renda, que havia recebido uma herança e que não precisava fazer porra nenhuma para viver. Afinal, ganhar a vida com arte não era isso mesmo? Não era ter dinheiro e viver fazendo só coisas gostosas? Vou passar o dia inteiro pintando, que gostoso! Passar o pincel na tinta amarela, depois na verde, depois na vermelha, que bacana! Tinta a óleo parece pomada contra assaduras para passar em bundinha de bebê, é mole, macia, desliza bem, dá para misturar com mais óleo e fazer uma papinha. Também dá para pintar diretamente com a mão. Dá para olhar o dia inteiro para a tela em branco e dizer que não estava inspirado. Dá até para vender a tela em branco e ganhar um bom dinheiro se conseguir que alguém olhe para a sua assinatura no cantinho do quadro e entenda que aquela é uma imagem que retrata com incrível transparência a relação entre o indivíduo e o nada absoluto. Obra-prima. Vamos falar seriamente agora. Ganhei uma herança sim. Já torrei quase tudo. Sobrou o sobrado da vovó. Oi vó, você algum dia imaginou que a sua casa seria habitada por uma como eu? Se soubesse disso teria feito alguma outra coisa com ela? Teria vendido a casa enquanto ainda tivesse tempo para gastar o dinheiro comprando todas as coisas que você sempre teve vontade de comprar na sua vida e não comprou? Vó, eu realmente tenho que lhe agradecer por todas as vontades que você não satisfez para que eu pudesse morar na sua casa e fazer arte. Tenho certeza de que você iria torcer o nariz se visse como estão as coisas. Está tudo um pouco bagunçado. É que meu pensamento funciona de forma orgânica. Sabe, estou trabalhando em um projeto. Não tem nada a ver com essas baboseiras conceituais que aparecem o tempo todo por aí. É arte mesmo. Cansei de pintar coisas móveis. Quando os homens pintavam figuras nas cavernas não esperavam que viesse alguém extrair um pedaço de rocha da parede e levasse para um lugar de exposição, ou, mais absurdo ainda, que alguém comprasse aquela imagem. A imagem fazia sentido porque pertencia a um único lugar, porque aquele único lugar no qual ela estava não pertencia e não podia pertencer ao mundo exterior. É isso que faz com que as coisas sejam sagradas. Pensei muito sobre isso. Se eu conhecesse uma pessoa e contasse para ela que embaixo da minha pele, em contato com a minha carne, havia uma série de desenhos, que eu os havia desenhado dia após dia durante toda a minha vida e que poderia descrever cada detalhe deles, você acha que essa pessoa conseguiria apreciar esses desenhos sem ter que tirar a minha pele e pendurá-la em algum lugar? Seria difícil, não é mesmo? Não sei se esse grau de entendimento seria possível. Talvez fosse mais fácil se eu me tornasse alquimista e encontrasse uma fórmula para tornar a minha pele suficientemente transparente para deixar o desenho aparecer, um pedacinho de cada vez. Um dia eu poderia mostrar uma parte, depois de algum tempo eu poderia mostrar outra e, aos poucos, o desenho ia sendo revelado. A pessoa só teria que não esquecer o que viu de cada vez, porque a pele volta ao normal depois de alguns segundos. É um processo que pode demorar uma vida inteira. Acho que nem se eu fosse alquimista eu conseguiria mostrar a alguém o que está desenhado dentro de mim. Então comecei a pintar as paredes da casa. Da sua casa, com os desenhos que eu nunca pude mostrar para você. No seu quarto o desenho é muito meticuloso. Não sei por qual motivo, mas quando estava trabalhando nele, reparei que as imagens que eu queria desenhar eram iguais às que estavam dentro de mim e também iguais a alguma coisa que eu já havia visto em algum lugar da casa. Passei dias sem conseguir desenhar nada, porque parecia que naquele lugar as coisas não funcionavam normalmente, como nos outros cômodos da casa. Eu não conseguia fazer aquilo sozinha, precisava me apoiar em alguma outra coisa que completasse a imagem. As formas que eu queria fazer não poderiam representar plantas aquáticas delgadas como cabelos verdes que se entrelaçam conforme a água faz movimentos, mas deveriam ser fios firmemente entrelaçados, que ilustram constelações em forma de carrosséis, mandalas celestes, engrenagens de um motor capaz de transformar coisas inconsistentes na realidade mais real que alguém um dia já foi capaz de sonhar. Remexi em tudo o que eu tinha em casa para ver se encontrava uma pista, um vestígio. Passei noites deitada na laje observando atentamente os desenhos que apareciam no céu quando um ponto se ligava a outro e percebi que a visão que eu podia ter do céu era muito redutiva para que fosse possível organizar a sua complexidade de modo inteligível para mim. É difícil ligar as estrelas de acordo com o plano que ocupam. Do meu ponto de vista, a sua profundidade sobreposta em bilhões de camadas que vão cada vez mais para dentro de si mesmas me deixavam confusa. Não somos capazes de entender o significado das ligações quando uma profundidade é profunda demais. Abandonei esse recurso, era inútil insistir. Pensei em ligar para a minha mãe, mas desisti, porque antes de conseguir explicar para ela o que eu estava precisando saber, precisaríamos conversar durante uns cinco anos sem parar, dia e noite. Acho que eu não iria aguentar. Nem ela. Interrompi os trabalhos no seu quarto. Continuei o trabalho nos outros cômodos e foi incrível como as coisas fluíram bem. No teto da sala eu desenhei cavalos alados que lutavam entre si com uma violência que parecia ter nascido de uma conjunção entre todos os desejos reprimidos do mundo. Não havia sangue na imagem, porque os desejos reprimidos são reprimidos justamente para não haver nenhum derramamento de sangue. Cavalos enlouquecidos e seguros ao mesmo tempo. Bem que eu gostaria de cavalgá-los. O piso também foi bem elaborado. Com uma faca pontiaguda entalhei no assoalho as escamas abandonadas de um peixe gigante, como se ele tivesse sido capturado e descamado pelos habitantes de um inteiro vilarejo. Todos trabalhavam juntos porque tinham fome, mas não eram egoístas. Descamaram o peixe juntos até o final antes de cortá-lo em pedaços iguais e distribuí-los entre todos. Enquanto entalhava as escamas no chão, sentia saudades daquele vilarejo e daquelas pessoas. Muitas saudades. Quase chorei, mas as lágrimas não saíram. Talvez porque as escamas pudessem de algum modo ficar manchadas com a água, não sei, talvez fosse isso. Mas, o mais provável é que eu tivesse medo de colocar para fora de uma vez tudo aquilo que estava gravado lá dentro como uma enxurrada, e não era daquele modo que as coisas deveriam ser feitas. Quando já estava quase desistindo de terminar os desenhos do seu quarto achei uma toalhinha de crochê caída entre o sofá e o rodapé da sala. Era fantástica. Subi correndo as escadas com uma lanterna na mão e projetei a sua imagem nas paredes do quarto mergulhadas no escuro. Aos poucos fui percebendo o motivo que me fez lembrar daquele objeto primeiramente de um modo subjetivo, apenas como uma sensação, sem que eu fosse capaz de ter uma visão concreta do objeto como um todo. Aquele objeto não tinha nenhum significado enquanto unidade. Por outro lado, ele era a imagem negativa de milhares de pequenos espaços que eu sempre quis ver preenchidos. Depois de projetar a imagem da toalhinha em várias posições, acendi a luz e transferi a sua forma para a parede preenchendo com pontos coloridos todos os espaços vazios entre um ponto e outro que formavam desenhos concêntricos. Após semanas de trabalho intenso, a toalhinha estava impressa em todos os lugares e ao mesmo tempo em nenhum. Ela estava lá e também não estava, decomposta em milhões de pontinhos resultantes da sobreposição da sua própria imagem. Pensei nas noites que havia passado na laje tentando encontrar uma solução para o seu quarto e vi que aqueles pontinhos reunidos ali eram muito parecidos com o céu achatado que conseguimos ver com os nossos olhos aqui na terra, só que a parede havia ficado infinitamente mais colorida. O melhor de tudo é que eu tinha à disposição todos os pontos necessários para obter qualquer tipo de imagem. Qualquer imagem poderia ser concebida a partir de qualquer um daqueles pontos. Se fossem organizados de um determinado modo, poderiam vir a formar qualquer uma das imagens da Capela Sistina, com todo o seu vigor corpóreo, seus volumes e perspectivas múltiplas, ou então, qualquer uma das composições geométricas essenciais de Mondrian. Todo o universo das artes visuais cabia dentro daquela parede; a única diferença dela em relação a todos os museus e galerias do mundo reunidos era que o expectador deveria interagir para organizar os pontos na justa posição. Em vez de as pessoas passarem apenas alguns minutos contemplando imagens completamente concluídas, que já haviam sido fotografadas, reproduzidas e difundidas em milhares de suportes diferentes em todo mundo, teriam que passar meses inteiros comtemplando uma parede como esta durante horas e horas a cada dia, juntando os pontos na própria mente e memorizando a ordem de cada pedaço formado para juntá-lo com outras partes formadas aos poucos ao longo dos outros dias. E quando dormissem, talvez pudessem ter a oportunidade de sonhar com as imagens ajustadas panoramicamente. Seria uma experiência capaz de virar a pessoa do avesso, literalmente. Só não sei quantos admiradores da arte teriam disposição para isso. Talvez só aqueles que já estivessem cansados de tudo, como eu. Agora, depois de ter terminado também as outras paredes do seu quarto, posso dizer que a casa está pronta para ser aberta ao público. Mas eu não vou poder estar presente. Para mim tudo tem que acabar definitivamente.” Deu uma última volta por todos os cômodos conferindo se tudo estava perfeitamente condizente com aquilo que havia decidido expor de si mesma. Uma imensa tranquilidade invadiu-a quando percebeu que poderia deixar todas as suas inquietudes para trás. Estaria tudo perfeito sem ela.





A campainha não parava de tocar. Quando finalmente os novos proprietários do imóvel conseguiram girar a chave na fechadura, que emperrava e precisava ser trocada, entraram na casa e viram que, ao contrário do que haviam combinado, a antiga moradora não estava lá esperando por eles para os acertos finais, mas, ao menos havia atendido uma das suas exigências. Todas as paredes estavam pintadas de branco e cheiravam a tinta fresca.

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Lucicleide na janela

(Conto premiado em terceiro lugar no Mapa Cultural Paulista 2003/2004)


Sentada na janela era fácil ver toda a gente que passava. Gente de todo o tipo. Homem bonito, feio, nojento, alto, gordo, desajeitado. Mulheres também de todo jeito. Mulher meio limbosa, mulher tipo barril, mulher charmosa, exagerada, cafona, na moda, barata. Era um volume de gente que passava com suas vidas, suas saias, suas calças. A janela era alta, a casa era daquelas antigas que davam direto na rua, parede dividindo o lado de dentro do fora-mundo.
Na verdade, ela não se sentava na janela com as pernas dependuradas para fora. Não, já era moça. Usava uma ponta da cômoda pra apoiar as nádegas e, no batente, os cotovelos pareciam brotos que saiam de dentro da madeira rachada. Mãos apoiando o queixo, cortina de voal logo atrás. Era um quadro onde só se mexiam os olhos da moça, olhos escuros, apertados. Seus olhos olhavam mas pareciam também mastigar as imagens como se fossem comida, pipocas carameladas para a alma.
O cenário era sempre o mesmo: outras casas lá do outro lado, fios elétricos ligando tudo, rua e calçada, uma árvore. Os personagens mudavam o tempo todo e a menina lá, só olhando. Tanta coisa pra fazer tem essa gente, tanto lugar pra chegar. Aqui é um ponto no caminho – pensava a moça – ninguém sabe, mas está todo mundo pagando pedágio pra mim, porque quem passa eu capturo, por um tempo pequeno, mas capturo...
- Lucicleide, saia daí! Quantas vezes tenho que falar para não perder seu tempo nessa janela! Que é que você está querendo? Um calo no cotovelo, é? Lucicleide!!!
E Lucicleide nem respondia. Tinha tido aula naquele dia. Colégio, sabe, todo dia. Colegas, conversas, matérias, detalhes, muitos detalhes. – Haja memória! – pensava Lucicleide – Aqui é diferente, na minha paisagem. Aqui tem muita coisa, mas nada se liga a nada. Não tem hoje, nem ontem, nem amanhã, nem datas, nem nomes, nem história. Seqüência não tem. Memória assim do tipo da escola cansa.
- Mãe, já tô indo! – responde a moça depois da décima vez em que a mãe esbraveja.
Mas que estranha é a minha mãe! Ela também olha tudo o dia inteiro, vê se tem poeira, se tem mancha, se brilhou, vê se fritou, se cozinhou, se desamassou. Vê tudo, tintim por tintim o dia inteiro e vem implicar comigo aqui, na janela. Acho que ela implica porque quando eu olho, serve só pra mim o que eu vejo. Curiosidade barata, coisa totalmente ‘a toa. Não serve pra nada. É isso que ela acha. Quando eu olho para a minha mãe, depois de tanto olhar pela janela, vejo um bem-querer bem-querido, meio nervoso, meio aflito, uma vontade sem tamanho de acertar em tudo, uma certa lambança na busca da perfeição das minúcias. Essa é minha mãe: Dona Clô.
Janta, lava a louça, arruma tudo. Dormir cedo. Mas Lucicleide não resiste: há uma fresta mais aberta entre os vãos da veneziana. Coisa boa ... gente da noite vai passar. O andar é mais lento, cadenciado. Mulher de salto alto, batom mais vermelho, mais perfume. Gatos passando, fuçando lixo, cachorros vadios. A bebedeira é mais profunda `a noite, madrugada adentro. A noite joga seu manto, o coração parece se comprimir no peito com a pressão que o escuro faz. As coisas se iluminam só parcialmente, um lado aparece, o outro esconde, meia-lua, meia-face
Bem na frente da janela tem um poste, aquele de onde tudo se origina, para onde tudo converge. Parece que o mundo está ligado a ele, é fio que não acaba mais. Holofote do meu show. O balé de insetos forma uma bola ao redor da lâmpada. Parece um átomo. Acho que deu sono ...mas... olha só... o que é aquilo? Alguém sentou bem debaixo do holofote! Que exibido! Não, não é exibido, ele nem sabe que estou olhando. O olhar dele é meio perdido, é moço, é bonito, queixo meio quadrado, nariz sensível, olhos escuros, cílios de véu. Sempre gostei de ver cílios compridos em mulheres, cílios com rímel, véu de segredos para os olhos. Nunca vi cílios de homem... mas esse aí tá tão bonito! Olhar de véu, olhar velado. Vela na escuridão da noite. Ai que aperto no peito! O que você faz aí? Parado, sozinho, pasmado, calado. Por que é que você não passa? Saia daí, anda! Volte pro seu canto, pros braços que te esperam, pijama de dormir quentinho, aconchego de cama feita. Saia dessa sarjeta suja que você parece rapaz asseado. Aí tem gente que cospe, tem bicho que mija, infinidades de solas passam misturando toda a sujeira do mundo. Mas que olhos escuros você tem ...
O rapaz saiu andando, de repente. Ânimo meio desanimado de marionete. Levantou-se e foi andando sabe-se lá para onde. Lucicleide abraçou o travesseiro. Dormiu sono de marinheiro, num mundo que balançava que nem o mar. Olhos escuros olhando para o nada. No sonho ela tomava coragem, fazia um sinal pela fresta da janela, e ele olhava para ela. No sonho, só sonho.
Café com pão de manhã. Sou personagem solta na rua. – Oi Marina. Oi Suzete. Blá, blá, blá, presta atenção. Matemática. Ciências. Memória, muita memória.
- Você é legal, Lucicleide, mas é um pouco diferente, sabe?
- Por que, Madalena?
- Sei lá, é meio quieta. Gente boa, mas parece que não liga muito pra nada.
- Que besteira, Madá. Eu sei de tudo que acontece, só que não dá pra falar de tudo que eu sei.
- Até parece que é esse o caso... Tá querendo dar uma de sabichona pra cima de mim? Do que é que você sabe que eu não sei?
- Você não ia querer saber.
- Ah! Agora conta!
- Sabe o que é, Madá, é que eu gosto de olhar bem as pessoas, e cada coisa que eu vejo me mostra um pouco como é a vida de cada uma...
- Grande coisa! Isso até eu faço. Sei onde a Ana comprou aquele tênis, sei porque a Cláudia só usa calça preta, porque a Kely não tira aquela faixa de cima da orelha. Isso todo mundo faz.
- É, você tem razão. Eu é que sou meio tímida mesmo.
É, Madá, melhor parar por aqui essa conversa. Me conta do tênis da Cláudia, eu escuto. Eu me entendo comigo lá na minha janela.
Será que hoje ele vem? O que está acontecendo com você, Lucicleide? Está esperando que o rapaz apareça? Não, não é vontade de ver o rapaz, eu só queria ver aquela cena de novo. Ela foi bem bonita... Aquela cabeça iluminada pela lâmpada atômica. Aquele olho mundo-sem-fundo, buraco negro, ímã do nada.
Minha mãe me perguntou hoje quando é que eu vou me interessar em fazer alguma coisa de verdade. – Nem namorado você tem! – desabafou ela. Coitada...Acha que está criando um bicho estranho dentro de casa, e que isso pode não dar em nada.- Ô mãe, desencana. Eu só não sei o que eu quero. É a idade, sabe,mãe. Deixe que eu me entenda aqui com a minha janela. Assim, desse jeito que não faz mal a ninguém. Só mais um tempo, mãe. Só mais um tempo. Se eu fizer isto quando estiver mais velha vão dizer que estou sofrendo de depressão. Desinteresse adulto pelo mundo é doença séria. Eu estou quase lá, mas ainda não cheguei.
Às vezes eu acho que se eu fosse um vaso na janela, tudo seria melhor. Que bobagem a minha! Eu gosto de ser gente, aliás, acho que sou muito gente. Há tantas pessoas por aí interessadas em coisas sem o menor sentido. Olha só aqueles homens de terno ali. São pessoas interessadíssimas em alguma coisa muito séria. São mercadorias de valor no mercado de trabalho. Que lindo papel! Aplausos para eles! Ah, Lucicleide... não seja tão dura com eles. Olha aqueles rapazes em grupo, escuta só o tipo de conversa:-A Lúcia é uma gostosa, aposto que se eu chegar junto...- brincadeirinha sexual. Bola de gude, figurinha, vídeo game, carro, mulher, tudo na mesma categoria. É até divertido. Sei lá, hoje estou meio amarga. Acho que é porque minha mãe veio com aquela estória de “nem namorado você tem”. Não é só incompetência minha não, sabia? Que culpa eu tenho se os homens parecem todos uns peixes de aquário? Eles pensam assim: “se for macho eu como ( no sentido de tirar pedaço, pra mostrar que é melhor que o outro), se for fêmea eu como ( no sentido de foder, porque ele é melhor que ela).
Ah! Que brisa boa tem essa noite! Um cheiro de murta doce. Flor branca muito sensual esta murta. Dá até vontade de dançar. Olha lá que casal apaixonado. Ele olha pra ela com ternura. Olhar de estrela. Bem bonito isso. Ela sorri meio encabulada. O peito dela até estufa de satisfação. Ele segura firme na cintura dela. Bonito isso. Ai que ódio! Esse cheiro de murta mexe comigo! Parece que o quarto ficou pequeno, meu quarto querido tão confortável. Que droga! Tem algo dentro de nós que parece querer jogar-nos para fora de nós mesmos! Que saco essa força, esse instinto! Estou me sentindo sozinha, sozinha, sozinha.
Lágrimas de Lucicleide. Líquido precioso, tinta transparente que escreve no rosto um pedido de socorro. –Será que tem alguém aí que pode me entender? Alguém que possa fazer parte do meu mundo sem pisotear as flores da minha sensibilidade? Como eu quero, ah, como eu quero conhecer alguém de verdade, poder lhe falar tudo, tudo e passear de mãos dadas. Eu daria tudo a esse alguém. Daria meu corpo, meu sangue, minha vida a alguém que gostasse de passear com minha alma. Que droga!
Mais e mais lágrimas de Lucicleide. Quem dera essas lágrimas escorressem pela janela e formassem uma poça na frente da casa. Os rapazes fariam fila para olhar na poça mágica. Aquele cujo rosto refletisse sua imagem na água de lágrimas seria seu verdadeiro e único amor.
Adormeceu Lucicleide. De manhã outro dia, depois mais outro, e, assim o tempo foi seguindo seu curso, e a moça foi sentindo que o tempo é um pouco como o vento que passa de leve e transforma a paisagem. O tempo é um vento que sopra a idade. A janela foi ficando cada vez mais sem graça. Aquela força que nos joga para fora de nós mesmos cresceu mais e mais em Lucicleide. Ela percebeu que o pedido de socorro tinha que ser feito diretamente, corpo a corpo. Tinha que ser gritado, anunciado aos quatro cantos: eu estou sozinha, sozinha, sozinha!!! Eu quero ser útil, ter um papel no mundo adulto, enfim, quero me atolar com as quatro patas na realidade humana.
Ficara bem mais ativa a menina da janela, tão ativa que até se esquecia de quem era ela. É bem verdade que os momentos para reflexão ficaram bem mais raros. Alguma emoção mais forte remetia a agora mulher `a menina-moça do passado. Quando isso acontecia ela dizia para si: eu sou eu mesma, eu mesma...
Ela disse isso todas as vezes em que chorou como naquela noite no passado. Ela abriu seu jardim secreto e algumas vezes se sujeitou aos inevitáveis pisoteios de pés masculinos explorando o universo delicado das mulheres. Viu como o mundo é cheio de espinhos, de frestas, de arestas. Aprendeu aos trancos que conviver é uma arte, que o mundo é uma intersecção de mundos que se expandem e se retraem. Aprendeu com uma certa dor que é impossível ter controle sobre grande parte da própria vida, que somos mais ou menos como a gaivota que voa no céu: ora bate as asas, ora plaina no firmamento. Somos a convergência de muitas forças que nos movimentam e paralisam, que nos fazem correr de medo e que nos confortam. Lucicleide aprendeu a ser esposa, a ser mãe, aprendeu a ser mulher. ‘As vezes ela vai até a janela e chama:
- Venha Luciano, meu filho! Está na hora do jantar! – ele nem responde e ela insiste – Venha meu filho! Acorde pra vida! O que é que voce quer ganhar ficando aí parado? E ele continua lá, com o olhar meio perdido, olhar de véu, olhar velado...vela na escuridão da noite...


Mariângela Ragassi


Caraguatatuba, SP

domingo, 17 de janeiro de 2016

O Verbo e Valeriana

    
   (capítulo extraído do livro de contos "Não julgarás - Valeriana e outras sete", lançado pelo KDP em fevereiro de 2016) 

    I. O Verbo e Valeriana

             Houve um tempo em que os planetas giravam em torno do sol sem que nenhum deles tivesse criaturas capazes de dar-lhes um nome. O verbo transformou-se em matéria, mas a matéria não se apropriou imediatamente de todas as faculdades do verbo. Isso aconteceu no princípio de tudo e continuou durante muito tempo depois. A matéria não tinha inteligência suficiente para pronunciar o verbo. A matéria, construída com inteligência, não era capaz de elaborar a inteligência com a qual foi construída e dialogar com ela. A matéria era um aglomerado de objetos mudos que obedeciam a leis gravadas na intimidade da sua natureza, atravessavam distâncias incomensuráveis sem se lamentarem nem se perguntarem para onde estavam indo. Eram a ação de um verbo que criava algo desprovido de olhos para olhar a si mesmo, matéria totalmente apática em relação ao próprio destino. Era justo que fosse assim, pois esses objetos faziam parte de um plano preparatório para a manifestação mais plena do verbo, como se no princípio o mundo fosse um teatro sem palco com uma imensa plateia surda porque nesse teatro não havia ninguém capaz de usar o verbo para ouvir ou contar a sua história. Tudo era uma sucessão de gigantescas massas anônimas que se chocavam violentamente sem emitir nenhum grito de dor, um prodígio de reações frenéticas, velocidades e temperaturas alucinantes e nenhuma demonstração de prazer. Assim, o universo trabalhou diligentemente na geração da própria complexidade material, obcecado em impor a sua nova estrutura a qualquer ordem de grandeza, como se fosse o resultado de um surto criativo de um artista abstracionista que dispõe a matéria de acordo com uma ordem caótica que só adquire significado à medida que seu mundo criado reabsorve todo o seu ceticismo lírico e a sua titânica fragilidade e segue adiante, atravessando o tempo. O tempo passou. Em alguma parte do espaço recém-modelado um insignificante grão de poeira cósmica apresentou algumas características particulares. Cozinhou-se no próprio fogo durante bilhões de anos até que conseguiu produzir uma espécie de sopa nutritiva. Água. Mar. Moléculas. Células. Metabolismo. Crescimento. Reprodução. Morte. Surgiram seres capazes de dar origem a outros seres idênticos a eles. Havia a necessidade de favorecer a variabilidade genética. Surgiu o sexo. A multiplicidade dos seres vivos, com toda a sua gama de novos instintos, foi sendo forjada com extrema paciência, até que chegou o momento de incluir na criação a inteligência. Através dela o verbo poderia finalmente interagir com cada pequena individualidade existente não apenas como ator, mas também como expectador-ator. Para que tudo pudesse ficar mais interessante desenvolveu-se simultaneamente o psiquismo, dando a capacidade de estabelecer laços afetivos e aguçar a percepção do mundo através da sensibilidade. A criatura inteligente pôde, então, contar com o vigor físico, com os sentidos, com o sexo, com os instintos e com as emoções para reinterpretar o seu ambiente, situar-se individualmente no mundo e organizar-se coletivamente. Sofisticou seus métodos de sobrevivência e passou a interferir na ordem natural das coisas. Formou sociedades. Criou coisas atribuindo significado a elas. Passou a sepultar os mortos. Tentou entender a dor. Imaginou. Plantou as sementes da civilização. O céu visto da Terra deixou de ser um espaço desprovido de história porque ele não era apenas uma imensidão anciã ocupada por corpos celestes em movimento, era um mistério. Um profundo mistério que precisava ser interpretado. E assim, o verbo fez-se forma para transformar-se em algo capaz de pressentir a existência do incógnito. Algo capaz de usar todas as palavras do mundo para tentar descrever o verbo, capaz de criar e usar a palavra verbo, logos, razão, deus, divindade e tantas outras e mesmo assim ficar em dúvida sobre o que é realmente possível abraçar com uma simples palavra. Essa

criatura inteligente, animal, pedra, explosão, vazio, dor, prazer tornou-se também interrogação.


As suas mãos esfoladas passavam sobre a superfície da água transparente no sentido contrário da correnteza e formavam pequenas ondulações. O sol brilhava alto no céu e alguns raios conseguiam atravessar os espaços que se abriam entre as folhagens das árvores quando o vento balançava suavemente seus galhos. Ao seu lado estavam espalhados alguns papéis e um tubo de plástico preto, cilíndrico e comprido. Tinha ido até lá para enterrar seu querido cãozinho que havia morrido naquela noite. Encontrou-o de manhã em um cantinho da sala, duro e gelado. Era a criatura mais dócil e gentil que havia conhecido em toda a sua vida e provavelmente morrera de velhice, silenciosamente, sem dar trabalho. Valeriana morava em um apartamento e não tinha um jardim à sua disposição para aquele tipo de ocasião. Mesmo que tivesse um espaço não cimentado perto de casa não ficaria em paz com a ideia de colocá-lo em um lugar movimentado como aquele, cheio de agitação, barulho de automóveis, cheiro de fumaça. Não se sentia bem com a ideia de cremá-lo; as cinzas, embora parecessem ser a solução mais prática para alguém que vivia como ela, eram tristes demais. Queria enterrá-lo em um lugar silencioso, no qual a natureza pudesse aos poucos, com calma, absorver o seu corpo e fazer com que fizesse parte da terra, das árvores, da água, do vento. Embrulhou o bichinho em uma blusa de lã bem quente e começou a pensar em uma solução. Teve algumas ideias que achou um pouco exageradas, mas, como era sábado e estava de folga, começou a reconsiderá-las. Lembrou-se de um sítio que ficava em uma região serrana do interior onde morava um casal simpático que alugava algumas estruturas do lugar para grupos que queriam passar um tempo em meio à natureza. Tinha ido lá uma vez com uma amiga que participava de um grupo de estudos sobre filosofias orientais, alimentação natural e outras soluções alternativas. Como os participantes habituais eram bem-humorados, e razoavelmente não bitolados, passou um fim de semana bem agradável. Procurou na gaveta da mesinha do telefone - que era um verdadeiro sumidouro de cartões de visita – e encontrou um cartãozinho caprichado feito de papel artesanal. Era cedo, mas ligou mesmo assim e conseguiu falar com a proprietária do sítio que já estava acordada há muito tempo e disse não haver problema algum em recebê-la se ela não se importasse de ter que dividir o espaço comum com outras pessoas, pois estava hospedando um grupo pequeno que só ocupava uma parte dos alojamentos. Valeriana olhou para o embrulhinho em cima do sofá e confirmou imediatamente a reserva. Disse que não iria almoçar com eles, pois queria aproveitar a parte da manhã para caminhar pela trilha e fazer um piquenique à beira do riacho. “Não, desta vez não vou levar meu cachorro comigo, já faz algum tempo que ele morreu”, respondeu e agradeceu a atenção, mudando de assunto. Chegou no lugar duas horas depois, um pouco enjoada por causa das curvas da estrada. Respirou o ar bom da serra que em agosto ficava ainda mais fresco, pegou uma bolsa onde havia colocado algumas peças de roupa e a sacola dentro da qual repousava seu querido Manu. Passou rapidamente pela casa principal, saudou o casal de anfitriões e pegou as chaves da casinha isolada que iria ocupar. Escolheu aquela porque ficava perto de onde começava a trilha que pretendia seguir até o bosque. Não tinha experiência com cadáveres e estava com medo de que ele começasse a cheirar mal e alguém pudesse perceber. Passou pela casinha para deixar a bolsa. Acenou de longe para cumprimentar algumas pessoas que não conhecia e reparou que estavam vestindo roupas longas e coloridas. Pensou quanto eram patéticas aquelas pessoas que liberavam durante alguns dias a própria excentricidade para depois voltarem correndo para as suas vidas banais. “Mas do que é que eu estou falando”, repreendeu-se logo em seguida, “quem sou eu para criticá-las? Estou carregando um cachorro morto dentro de uma sacola para enterrá-lo escondido em um lugar que não me pertence porque a essa altura da vida tenho que viver em um apartamento de merda em uma cidade caótica e desumana onde ninguém se importaria se eu jogasse o Manu no lixo depois de passar dezesseis anos ao seu lado. Que cada um faça aquilo que quiser da própria vida. Eu também não estou nem aí.” Acelerou o passo. Só pensava em chegar logo em um ponto em que a trilha parava de beirar o rio e penetrava em um bosque onde a vegetação se tornava ainda mais espessa. Lembrava-se de que algumas centenas de metros mais adiante havia uma clareira em formato circular e que do outro lado a trilha voltava e beirar o rio. Ao chegar na clareira, achou que já havia caminhado o bastante. Olhou ao redor e resolveu entrar no bosque à direita, fora da trilha, pois ali a vegetação parecia oferecer um pouco mais de espaço em relação às outras direções. Caminhou com dificuldade mata adentro até que se deparou com uma grande árvore, muito alta. Pousou delicadamente a sacola encostando-a em uma raiz saliente. Agachou-se e passou a mão sobre a camada de folhas para abrir espaço. Foi quando percebeu que não havia levado nenhum utensílio para cavar o buraco. “Eu não acredito que esqueci dessa parte. Que idiota! E agora, como eu vou fazer?” Pegou um graveto e tentou usá-lo para remover a terra, mas era dura demais. Tentou com uma pedra pontiaguda e conseguiu fazer alguns riscos na superfície. Deixou a pedra cair no chão, desanimada. Sentou-se sobre uma raiz que fazia uma curva ascendente antes de mergulhar no chão. Insetos rondavam a sacola e Valeriana percebeu que algumas moscas mais atrevidas tentavam encontrar uma passagem para entrar. Não poderia ficar ali sem fazer nada. Percorreu com os olhos o mosaico de luzes e sombras que decorava o tapete de folhas secas no chão e notou que mais adiante havia uma falha e a terra parecia estar mais úmida. Pegou a pedra e aproximou-se do local. Ali era muito mais fácil de cavar. Em poucos minutos formaram-se vários montinhos de terra nas beiradas e o buraco foi ficando mais fundo. De repente Valeriana parou de cavar. A pedra havia batido em alguma coisa que ela não conseguia definir o que era. Removeu mais um pouco de terra com as mãos e foi descobrindo um objeto preto de forma alongada. Era um tubo de plástico, daqueles usados para guardar projetos. Era por isso que a terra estava fofa. Algum idiota tinha ido lá recentemente enterrar aquele canudo de plástico. Ficou em dúvida sobre o que fazer. Usou a pedra como alavanca e puxou o tubo para fora do buraco. “Que droga. Não posso enterrar o Manu junto com isso aqui. Pode ser que alguém venha desenterrar o bagulho depois de algum tempo. E se for desse pessoal que está hospedado aqui? Deve ser, a terra estava muito fofa, acho que foram realmente eles que fizeram isso. O que é que eu faço agora?” Atirou o tubo no chão com raiva e continuou a cavar, alargando mais o buraco. Quando o seu braço já estava afundado acima da altura dos cotovelos, parou de cavar. Pegou a sacola, abriu o zíper e, com cuidado, tirou de dentro o corpinho embrulhado. Ajoelhou-se e colocou-o no fundo do buraco. Jogou um punhado de terra sobre ele, disse algumas frases desencontradas que eram uma mistura de orações que não recordava muito bem, de palavras que descreviam quanto era belo o céu para os cachorros e de como ele havia sido bom e querido. Enxugou as lágrimas com as mãos sujas e o seu rosto ficou todo manchado de marrom. Cobriu a cova com a terra acumulada nas beiradas, compactando-a bem. Não queria que o túmulo fosse violado. “Nunca se sabe quando vai aparecer alguém e desenterrar aquilo que você enterrou” pensou consigo mesma olhando o tubo de plástico jogado no chão. Achou que seria melhor colocar uma pedra bem pesada por cima para desencorajar os intrusos. Não muito longe dali havia uma que parecia perfeita. Era muito pesada, teria que ser rolada. Imprecou todas as vezes que a pedra quase amassou os seus dedos, pois era difícil controlá-la. Finalmente conseguiu colocá-la no lugar. Para dar a impressão de que o local não havia sofrido modificações recentes, espalhou folhas ao redor da pedra. Cada músculo do seu corpo estava dolorido. Não sabia que horas eram. Achou que era hora de voltar. Precisava comer, sentia-se fraca. Chutou sem querer o tubo preto de plástico. Quis deixá-lo ali onde estava. “Que diferença faz estar enterrado ou não? Está bem fechado e este plástico vai durar mil anos.” Deu alguns passos e não conseguiu seguir adiante. “E se for importante para aquelas pessoas que ele fique enterrado? Desde quando eu perdi o respeito por aquilo que é importante para os outros?” Voltou e pegou o tubo. Enterrá-lo em outro lugar naquelas condições era impossível. Teria que deixá-lo escondido em algum lugar e voltar no dia seguinte com uma pá. Prestou atenção nas mãos que seguravam o objeto. Estavam cobertas de terra e machucadas, precisava lavá-las. Percebeu que o tubo estava rachado. “Deve ter acontecido quando eu bati a pedra sobre ele. “E agora, vou enterrá-lo assim mesmo? E se forem coisas importantes? Vão estragar.” Caminhou até a beirada do rio carregando o tubo e a sacola vazia. Sentou-se no chão. Talvez fosse melhor levar o tubo consigo e perguntar se pertencia a alguém que estava hospedado ali, explicar o que aconteceu e pedir desculpas. “Não, não tenho coragem de fazer isso. Não posso contar para todo mundo que vim aqui enterrar meu cachorro, os donos do sítio vão se ofender por eu ter escondido isso deles. Pelo jeito eu estraguei o trabalho que essas pessoas vieram fazer aqui. Com que cara eu vou falar isso para elas?” Resolveu abrir o tubo para ver o que tinha dentro. Raspou com as unhas marrons a fita adesiva que selava a tampa até que conseguiu encontrar a parte final e puxou, desenrolando todas as voltas de fita que haviam sido dadas ao redor da abertura. Removeu a tampa e virou a boca do tubo para baixo, deixando cair o conteúdo sobre a relva ao seu lado. Havia vários papéis escritos à mão, cada um com uma caligrafia diferente. Sentiu-se desconfortável em mexer naquilo. Uma pessoa na minha idade deveria ter segurança suficiente para saber se comportar sem trair a confiança dos outros, sem ter vergonha de assumir as próprias atitudes. Pensou que já havia suportado tantas situações difíceis na vida que já estava na hora de aprender a assumir os próprios atos, sem subterfúgios. “O que vai adiantar ver o que está escrito nesses papéis? Quem eu penso que eu sou para julgar se são coisas suficientemente importantes? Suficientemente importantes para quê? Para justificar o papelão que eu vou fazer contando para todo mundo o que eu fiz? Se eu acho que essas pessoas não vão entender as minhas razões, por que eu me importo tanto com o que elas vão pensar de mim? Elas não me conhecem, eu não as conheço e já tenho certeza de que ninguém vai conseguir se entender. Somos todos humanos e de vez em quando cometemos erros. É isso aí. Faz parte da nossa natureza. Fomos feitos desse jeito e ninguém sabe por quê. Vou lá contar que me apropriei indevidamente de um pedaço de terra alheia com a melhor das intenções para não ter que envolver ninguém nessa história de enterro de cachorro, porque achei que a nossa amizade não era suficiente para isso. Vou pedir mil desculpas. Vou dizer para aquele pessoal estranho que roubei o buraco deles por uma infeliz coincidência e me desculpar muito também. Essas coisas acontecem. Depois eu vou até a cidade mais próxima tentar achar uma porcaria de tubo igual a esse para comprar, volto para o sítio, empresto uma pá para cavar aquela terra dura do cacete, caminho até aqui novamente e enterro tudo de novo, perto de onde ele estava antes. Peço desculpas novamente para aqueles sobreviventes de Woodstock por ter arruinado o fim de semana legal deles. O sonho acabou, baby. Acabou há muito tempo, viu?” Sentiu-se muito cansada. Estava suja de barro da cabeça aos pés. Aproximou-se mais da água e começou a passar as mãos na superfície para dissolver a terra. As pequenas ondulações que se formavam desapareciam rapidamente, pois a correnteza as desmanchava. Suas mãos estavam machucadas e algumas unhas tinham-se descolado da pele e aprisionavam alguns milímetros de sujeira. Tirou as mãos da água e secou-as na parte interna da blusa. Teve uma ideia. Recolheu os papéis e colocou-os de volta no tubo. Fechou a tampa e enrolou a fita adesiva ao redor da abertura. Não aderiu muito bem, mas não tinha importância. Levantou-se com dificuldade, pois seus músculos precisavam descansar, pegou o tubo e a sacola e fez o caminho de volta até a clareira. Encostou o tubo em uma árvore, atravessou a clareira e pegou a trilha mais adiante, caminhou por mais alguns metros e encontrou novamente o rio. Mergulhou a sacola na água e deixou que enchesse até a metade. Viu que conseguia carregá-la sem problemas. Voltou à clareira, pegou o tubo, entrou na mata e escolheu um lugar próximo ao túmulo do cachorro. Afastou as folhas, despejou aos poucos a água no chão e a terra a absorveu completamente. Pegou a pedra pontiaguda e cavou longitudinalmente na mesma direção do outro buraco. A terra molhada não opôs resistência. Repetiu a operação mais duas vezes e o buraco ficou suficientemente fundo. Colocou nele o tubo com a rachadura voltada para baixo, onde havia feito uma concavidade para deixar um espaço vazio entre a rachadura e a terra, para evitar a infiltração de umidade. Fechou o buraco compactando bem a terra, pegou a sacola e foi embora. No caminho encontrou o grupo de pessoas com roupas coloridas que estava indo até o rio. Cumprimentaram-na com olhares preocupados e perguntaram se ela estava bem, se precisava de ajuda. Ela inventou uma história dizendo que levou um tombo na beira do rio e caiu no barro, mas que estava tudo bem. Só queria ir para casa tomar um banho quente. Agradeceu e deixou que seguissem o seu caminho em paz. Resolução de problemas. Era perita no assunto. Fazia parte da sua profissão. Treinava as pessoas para isso. Afinal, era suficientemente inteligente para não ter que incomodar as pessoas com a verdade.

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